terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Pela valorização das ações de bebês e crianças


Pais e professores, por aqui (no Canadá), respondem automaticamente com um “good job!” (tradução literal: bom trabalho!) às ações das crianças. Ao visitar creches e pré-escolas, algo nessa expressão me incomodava. “Bom trabalho” em resposta a quê? Qual expectativa está em jogo? E, por que a palavra “trabalho” se, muitas vezes, as crianças apenas mostram desenhos, arriscam uma canção ou escorregam com prazer no parquinho? Se eu fosse uma das crianças pensaria: o que é um bom trabalho? Por que recebo esse tipo de elogio se o que mostrei é apenas meu prato limpo após deliciar-me com meus morangos? E se eu não fizer um bom trabalho, o que recebo? Serei punida?

Penso que, na melhor das intenções por valorizar as crianças, esse tipo de frase mais atrapalha do que ajuda. Além do mais, vincula todo e qualquer tipo de atividade ao conceito de trabalho, o que pode significar para a criança muito mais do que o esforço em aprender, em desenvolver-se ou em experimentar criativamente uma música, uma brincadeira, um desenho ou seja lá o que for.

Pesquisas atuais tem mostrado que mimar e valorizar toda e qualquer conquista de bebês e crianças, ao contrário do que se imagina, torna-lhes mais seguras de si, auxiliando para que cresçam com confiança e criativas. No entanto, tornar essa valorização uma resposta mecânica não os ajuda nem um pouco a entender suas conquistas. Saber a razão por que estão sendo elogiadas ajuda as crianças a melhorar sua autoestima, permitindo que possam antecipar e planejar novas ações com base em um autocontrole gradual. Ser elogiado gratuitamente e mecanicamente nem sempre impacta de maneira positiva e pode soar estranho para as crianças, a depender de quem a faça! Por que não tentar outras respostas mais contextualizadas e associadas a uma escuta atenta e afetiva?

Em recente publicação da Teaching Young Children, diferentes autores sugerem 10 dicas para ajudar os pais a tornarem mais compreensivos seus elogios aos pequenos. Selecionei algumas delas que nos ajudam a nos relacionarmos melhor com suas conquistas, tornando-as mais compreensíveis e, por que não, possíveis de serem partilhadas.

1) Para começar, use frases que revelam que estão sendo vistos, ouvidos, atendidos: diga “estou te vendo” ou “estou te ouvindo” ou “percebi que você abriu a porta” ou, ainda, tente apenas um “diga-me mais sobre o que você está fazendo”;

2) Observe e dê retorno sobre o que a criança acabou de realizar. Diga, por exemplo: “André, vi que você passou um bom tempo no seu quebra-cabeças até terminá-lo. Muito bem!’’ Tente dar retornos não verbais. Um abraço, um sorriso, uma piscadela, um beijo ou um bater entre as mãos: "Que ótimo! Vejo que você está aprendendo”;

3) Convide-as a falar ou a se expressar como puderem sobre o que acabaram de realizar. A aprendizagem das crianças é mais intensa quando elas podem falar sobre suas explorações e criações. Tente um "Que interessante. Como você fez isso?" ou "Você escreveu uma porção de palavras em seu papel. Pode me dizer o que está escrito aqui?" ou ainda “Vi que gostou dessa pintura, esteve alegre o tempo todo enquanto estivemos em frente a ela!”;

4) Atente aos detalhes. Ao falar sobre um desenho ou uma pintura, descreva as formas, linhas, cores, texturas que você vê em seu trabalho. Experimente sentar ao seu lado e solicite que a ajude a descrevê-lo: "Olhe para todas as linhas verdes aqui! E quantas bolinhas coloridas você produziu! Ficou muito bom!”;

5) Agradeça quando bebês ou crianças fizerem algo útil, mostrando que elas ajudam muito, mesmo que seja apenas abrir uma porta ou jogar uma casca de banana no lixo.

No geral, pense um pouco antes de elogiar ou criticar um bebê ou uma criança. Suas expectativas podem ser mal interpretadas e deixar mágoas ou incompreensão. Pergunte a si mesmo, antes de falar: Eu quero reconhecer um comportamento, um ato de generosidade, ou o uso de habilidades interessantes? Esse tipo de interação poderá ter resultados positivos nas aprendizagens e no crescimento das crianças. Mas não se esqueça de colocar uma pitada de afeto, uma colher de tolerância e um caldeirão de respeito pelo esforço empreendido, mesmo que os resultados não forem dos melhores!

Gisela Wajskop é socióloga, mãe de Felipe, 31, e Marcelo, 17. Ela sempre trabalhou com ensino infantil e tem mestrado sobre a brincadeira na escola pública e doutorado sobre como formar professores para estimular a diversão das crianças, ambos pela USP. 

Fonte: revista crescer

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