segunda-feira

Pesquisa inédita mostra que pais e educadores têm sérias dúvidas na hora de proteger filhos e alunos do sol

Crianças com menos de 3 anos são as mais expostas, por receio dos pais em usar protetor solar


Você acha que seu filho está a salvo dos raios solares? Tem certeza? Um estudo realizado pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) revelou que pais e educadores, muitas vezes, desconhecem medidas efetivas para proteger as crianças e subestimam os efeitos da exposição à radiação. O estudo incluiu entrevistas com 823 pais e 157 educadores de todo o país e os resultados servirão para fortalecer a campanha Sol, amigo da infância – pele protegida para toda a vida, promovida pela SBD.

Teoria x prática

Apesar de 58% dos pais e 57% dos educadores afirmarem que a exposição excessiva ao sol na infância pode levar ao câncer de pele, o comportamento na hora de resguardar as crianças deixa a desejar. Os pais têm boa intenção, mas falham na hora de estabelecer uma rotina completa de proteção: 89% deles dizem aplicar protetor solar nos filhos, mas a maioria não repassa o produto. Uma parcela dos entrevistados (11%) revelou nunca usar o filtro: 42% esquecem, 32% não compram porque acham muito caro e 15% não consideram importante. “Muitos pais acabam sendo displicentes, querem impor às crianças o ritmo de vida deles, não querem acordar às 7 horas da manhã para levar o filho à praia no melhor horário e se esquecem do protetor. Há situações em que a própria criança não colabora, não quer repassar o protetor, não quer parar de brincar. É desgastante, mesmo”, explica Meire Parada, dermatologista com título de especialista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).

A pesquisa mostrou também que uma parcela considerável dos entrevistados não sabe ao certo em que circunstâncias o protetor solar é necessário. Entre os pais, 38% dizem desconhecer a importância da proteção em dias nublados. Entre os educadores, esse número cai para 25%. E não para por aí: um terço dos pais não acha fundamental aplicar protetor solar fora da praia-- o que mostra que ainda existe uma crença de que os riscos são exclusivamente associados à exposição direta ao sol. No entanto, vale lembrar que, mesmo em dias nublados, a radiação pode estar até mais forte do que naqueles ensolarados - os ambientes fechados também merecem atenção. “Mesmo que você esteja dentro de casa ou do escritório, se tiver uma janela, já é suficiente para a radiação entrar. Por isso, o protetor deve ser reaplicado de 2 a 3 vezes ao dia, ainda que a pessoa não esteja diretamente exposta”, esclarece a dermatologista Samar Harati, do Hospital e Maternidade São Luiz (SP).
Os resultados revelam outros comportamentos ainda mais contraditórios. Enquanto 69% dos pais dizem estimular os filhos a ficarem longe do sol nos piores horários, entre as 10h e 16h, 45% dos educadores deixam as crianças expostas justamente nesses horários, quando há maior incidência de raios UVB, que aumentam a incidência de câncer.

Crianças menores de 3 anos estão mais vulneráveis

Provavelmente por receio de desencadear alergias, 32% dos pais afirmaram que só utilizam filtro nas crianças com mais de 3 anos. Porém, o protetor pode – e deve – ser usado a partir dos seis meses de vida. “Antes dessa idade, deve-se evitar a exposição solar e, portanto, o uso de filtros solares também. Medidas físicas de proteção, como chapéus de abas largas e roupas protetoras, podem ser usadas em situações inevitáveis”, explica Paulo Criado, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia - Regional SP.

O paradoxo é que, ao mesmo tempo em que 52% dos pais e 65% dos educadores acreditam que é necessário buscar a orientação de um dermatologista antes de usar protetor solar nas crianças, um terço dos entrevistados afirma que nunca levou o filho ao dermatologista ou que o levou apenas uma vez. “Os brasileiros não procuram médicos para prevenir doenças, só para tratá-las, quando o problema já existe. Além disso, ainda há uma leitura errônea de que o dermatologista é um profissional mais ligado à estética do que à saúde”, explica Samar. Os resultados da pesquisa confirmam a explicação da médica: 58% das famílias, de fato, só procuraram o especialista quando o filho já apresentava alguma alteração na pele.
O que muitos pais não sabem é que a maioria dos protetores kids, formulados especialmente para crianças, oferece proteção física, com ou sem ação química combinada. No primeiro caso, são usadas duas substâncias: dióxido de titânio ou óxido de zinco. Elas refletem a radiação em vez de absorvê-la e têm menos chance de causar alguma reação alérgica – por isso, a recomendação é só usar protetores kids nas crianças. Eles são mais grossos, grudentos e difíceis de espalhar, mas são os mais recomendados. Já os produtos químicos são aqueles convencionais, que contêm com o Fator de Proteção Solar (FPS).

Mas, afinal, que mal o sol pode fazer?

Rugas, manchas, aumento da flacidez da pele, envelhecimento precoce. Todas essas consequências parecem muito distantes quando se pensa na infância. Mas a radiação tem um efeito cumulativo no nosso organismo: é como se o corpo fosse armazenando todos os danos causados pelo sol ao longo da vida, desde o nascimento. “As pessoas não entendem que o câncer de pele é semeado na infância e colhido na vida adulta. A cultura da estética e os padrões de beleza atuais fazem apologia ao bronzeado e têm um apelo emocional maior do que prevenção focada na saúde”, explica Criado.

Os cânceres de pele são os mais frequentes no Brasil e já representam 25% do tumores malignos no país. “Os tipos mais comuns são o carcinoma basocelular e carcinoma espinocelular, que aparecem na idade adulta, como consequência da exposição solar desde a infância”, complementa Meire.

No outro extremo...
Segundo a pesquisa, 6% dos pais e 27% dos educadores disseram nunca deixar filhos e alunos expostos ao sol -- o que também não é bom. O corpo precisa de luz solar para completar seu estoque de vitamina D. Sem ela, a criança pode desenvolver uma série de problemas ósseos, como o raquitismo, além de maiores chances de contrair infecções e desenvolver diabetes tipo 1. “Estudos mostram que a exposição ao sol de 2 a 3 vezes por semana, por 10 a 15 minutos já é suficiente para garantir a vitamina D”, explica Criado. Nem é preciso ficar com tudo à mostra: tomar sol só nas pernas ou só nos braços  basta. Em compensação, é sempre melhor que o rosto fique protegido.

PROTETOR SOLAR: MODO DE USAR
Como escolher o protetor certo? Sempre utilize produtos kids, que oferecem só a proteção física, ou que associam o efeito químico. Não é recomendado usar protetores para adultos em crianças, mas os adultos podem usar os protetores kids sem problema – ainda que eles deem bem mais trabalho para espalhar!

Ao que devo ficar atento na embalagem? O Fator de Proteção Solar (FPS) deve ser no mínimo 30, segundo a recomendação da Sociedade Brasileira de Dermatologia, independentemente do tom de pele. O produto deve ter registro na ANVISA e a validade deve ser checada. Também é muito importante que os pais observem se o produto protege contra a  radiação UVA.

Como e quanto devo aplicar? É recomendado passar o protetor pelo menos 30 minutos antes de se expor ao sol. Para manter o fator de proteção solar indicado, a quantidade recomendada pelos especialistas é muito maior do que a que normalmente se aplica. Para se ter uma ideia, em um adulto, o recomendado é usar uma quantidade equivalente a uma colher de chá para o rosto e uma xícara de chá para o corpo. Por isso, não economize na hora de passar nas crianças!

De quanto em quanto tempo é preciso repassar? O certo é reaplicar o protetor a cada 4 horas, se não houver exposição direta ao sol, e a cada 3 horas, se houver. Protetores solares não são à prova d’água. Se o seu filho entrar no mar ou na piscina, é preciso repassar o creme logo em seguida. O mesmo vale se ele transpirar brincando ou praticando alguma atividade física.

Há outras maneiras de se proteger? Sim, o uso de protetor solar pode ser combinado com óculos, chapéus, camisetas, todo tipo de barreira física contra o sol. Roupas com fator de proteção solar também funcionam. E para as crianças que não saem do mar ou da piscina, a pasta d’água pode ser uma boa para proteger as áreas mais sensíveis do rosto, já que ela não sai na água.


Fonte: revista Crescer

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