sábado, 9 de fevereiro de 2013

Simplificar para mudar o mundo



Quando se tornou mãe, a administradora gaúcha Márcia Werle desejou fazer algo para deixar de legado para as filhas. Inspirada nelas, criou uma empresa de projetos autossustentáveis que transforma óleo de fritura em biodiesel – o combustível que moverá os ônibus dos esportistas na Copa do Mundo da Fifa de 2014

Cristiane Rogerio

Márcia e a filha Natali no Rio de Janeiro. Morgana, a filha caçula, estava em um intercâmbio no exterior

Nas minhas primeiras anotações da entrevista que fiz com a administradora de empresas Márcia Werle está a frase: “Ah, filhos são sempre um presente”. Ela já resumia o teor principal da conversa. E não é papo de mãe. As meninas Natali e Morgana, hoje com 17 e 16 anos, mexeram com os pensamentos dessa, digamos, ambientalista por experiência. E mudaram o rumo da vida dela. Márcia trabalhava em uma fabricante de peças para instrumentos agrícolas, em Santa Rosa, cidade de 62 mil habitantes no interior do Rio Grande do Sul. Sua carreira ia bem, mas, conforme assistia ao crescimento das filhas, sentiu que o que fazia não era suficiente. Em um desejo doido de mãe, decidiu que precisava melhorar o mundo. Foi assim que ela criou a Biotechnos Projetos Autossustenváveis, empresa que acaba de ganhar o Prêmio Finep de Inovação Sustentável pela Região Sul, promovido pelo governo federal. Entre outras ideias, ela está à frente do Bioplanet Tecnologia Social, projeto que iniciou a produção de 25 milhões de litros de biodiesel, exclusivamente a partir de óleos residuais, e, até agora, envolveu 3 milhões de estudantes e a inclusão produtiva de 10 mil catadores de materiais recicláveis. A iniciativa é a única do gênero selecionada no plano para promover o Brasil para a Copa do Mundo Fifa de 2014, quando se prevê a utilização do biodiesel produzido pelo projeto no transporte coletivo municipal de todas as cidades e no das delegações. Com todas essas novidades, não fica difícil imaginar o quanto a empresa vem se expandindo. Tanto que, há pouco menos de dois meses, Márcia se mudou com as filhas para o Rio de Janeiro, cidade mais estratégica para abrir o primeiro escritório fora de sua terra natal. E estão prontas para a próxima fase. 

Campanha nas escolas 

Esse intenso envolvimento com questões ambientais começou a partir de um dia qualquer da rotina da família, Márcia foi buscar Natali e Morgana (na época com 6 e 5 anos) na escola, mas mal conseguiu dar “oi”. As meninas estavam naquela típica euforia de quando uma criança aprende algo que adorou. “Mãe!” – disseram enloquecidas –, “precisamos agora ter dois lixos em cada lugar da casa.” Márcia levou alguns minutos para entender que a prefeitura da cidade havia feito uma campanha nas escolas para sensibilizar as crianças – e, por consequência, os pais – da importância da separação e reciclagem do lixo. Com as cabecinhas tomadas de conceitos e exemplos, as duas insistiram tanto que Márcia teve de ir na mesma hora a um mercado comprar as lixeiras novas. “Foi quando percebi o poder de uma criança, o poder da educação. Elas fiscalizavam tudo em casa, deram um sermão até na avó”, conta a mãe. 

A empolgação das meninas apenas veio ao encontro de uma vontade de Márcia de montar uma empresa que produzisse algo pró-meio ambiente. Mas não fazia ideia de como começar. Primeiro, fez um curso de gestão empresarial, pela Fundação Getúlio Vargas de Porto Alegre, para sonhar com mais precisão em abrir o seu próprio negócio. Depois, passou pelo Programa de Gestão Avançada do grupo Amana-Key, em São Paulo, onde as dinâmicas e atividades fizeram a administradora chegar ao foco de sua atuação: projetos autossustentáveis. Ela, então, começou a contratar pessoas e estabelecer parcerias, até que, em 2009, passou a se dedicar em tempo integral à empresa. Foi participando de uma feira de novas tecnologias em Hannover (Alemanha) que teve a ideia da usina de biodiesel. “Nas pesquisas de como poderia ser feita, soube do dano ambiental do descarte indevido dos óleos residuais e percebi que tinha aí a resposta.” 

Enquanto cuidava do desenvolvimento de tecnologias ecologicamente corretas, Márcia se deu conta de que, para tudo fazer sentido, era necessário também investir em educação ambiental. Surgiu a ideia de promover campanhas de recolhimento de óleo de fritura nas escolas públicas. As crianças levavam os resíduos e a Biotechnos pagava 60 centavos por litro. Esse dinheiro se revertia em melhorias para a escola, enquanto Márcia e sua equipe usavam o material nas pesquisas em busca da certificação pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biodiesel. “O envolvimento dos alunos é fundamental. Também os recebemos na empresa para mostrar o processo de conversão do óleo de fritura em biodiesel e explicamos o benefício disso para o planeta. Uma vez, uma menina me disse: ‘Agora sim entendi o que é sustentabilidade. Se esse óleo fedido e sujo pode virar combustível, imagine o que ainda pode ser feito?’.” 

Aos 39 anos e com um mundo inteiro para mudar, Márcia já percebe que não é somente na profissão que o toque das filhas foi “de ouro”. Algo mudou nela também. “Apesar de turbulenta, simplifiquei minha vida. Um exemplo bobo: eu era muito vaidosa, me preocupava com tudo. Hoje me cuido, claro, mas sem crises. E acredito que me tornei mais sensível. Outro dia, estava no aeroporto de Guarulhos, vi uma senhora completamente perdida e ofereci ajuda. Acho que, antes de ser mãe, provavelmente estaria muito mais concentrada em um livro ou no celular e nem repararia nela”, conta a empresária. E as meninas, por sua vez, também são influenciadas. Veja só a discussão que Márcia precisou travar com Natali durante uma de suas viagens a negócios. Por telefone, a mãe insistia para que a filha estudasse para a prova de química, que aconteceria no dia seguinte. Mas a menina atendeu o celular de dentro de um lar de idosos onde fazia trabalho voluntário (arrumava o cabelo, fazia as unhas e as sobrancelhas das moradoras) e respondeu para a mãe. “Vou estudar depois, porque eu tinha que vir. Prometi a elas.” E precisa argumentar mais? 
COMBUSTÍVEL DO BEM 
O biodiesel é um combustível biodegradável derivado de fontes renováveis. Ele pode ser produzido, por exemplo, a partir da reciclagem de óleo de fritura, altamente poluidor: cada litro despejado em ralos contamina até 1 milhão de litros de água, que equivale ao consumo de uma pessoa em 14 anos. A mistura desse tipo de óleo ao diesel pode reduzir em até 60% a emissão de gases poluentes nos veículos.

Fonte: Revista Crescer


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