quinta-feira, 9 de julho de 2015

Ser popular está ligado à capacidade de perceber pensamentos e sentimentos alheios, revela estudo

Ao contrário do que se imagina, nem sempre os mais falantes e extrovertidos são os que se tornam mais queridos pelo grupo. Entenda




Uma pesquisa recente realizada no Reino Unido constatou que 40% dos pais estão mais preocupados sobre seus filhos serem populares do que sobre serem inteligentes. E agora, um novo estudo, realizado na Universidade de Queensland, na Austrália, parece explicar qual é a característica que pode tornar os pequenos mais queridos entre os colegas: saber identificar o que os outros pensam e sentem.

Analisando os resultados de uma série de estudos anteriores, um tipo de pesquisa chamada de meta-análise, especialistas constataram que aquelas crianças com melhores habilidades de compreender o que seus pares estão pensando e sentindo são consideradas mais populares dentro do grupo. O grau de popularidade das crianças foi dimensionado com base nas nominações feitas por colegas de sala e em classificações apontadas por professores. No total, foram examinados dados de 2.096 crianças de 2 a 10 anos da Ásia, Austrália, Europa e América do Norte, pertencentes a diversas classes sociais.

Para a líder da pesquisa, Virginia Slaughter, que é professora e Diretora da Escola de Psicologia da Universidade de Queensland, o estudo “sugere que entender as perspectivas mentais dos outros pode facilitar os tipos de interação que ajudam as crianças a se tornarem ou se manterem populares”.  Segundo os resultados, isso se aplica tanto às crianças em idade pré-escolar quanto às mais velhas, e essa sensibilidade em perceber o outro pode funcionar como uma boa base para estabelecer e manter amizades.

No entanto, a psicóloga e psicopedagoga clínica Ana Cássia Maturano ressalta que ter apenas essa capacidade empática não basta para que se estabeleça um vínculo: é preciso haver uma devolutiva. “O outro precisa se sentir compreendido, acolhido. Assim, ele se identifica com essa criança capaz de perceber seus sentimentos, que se torna alguém com quem ela pode contar, se abrir”, explica. Aí reside a diferença entre ter muitos colegas e ter muitos amigos: não se confia em ambos da mesma forma.

Mas por que ser popular importa tanto?

Para a psicopedagoga Quézia Bombonato, diretora da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), essa valorização da popularidade tem a ver com o hedonismo da sociedade atual, que preconiza a busca constante por prazer e reconhecimento. “Existe essa percepção de que o popular tem uma boa autoestima. E quem possui essa habilidade tem uma probabilidade maior de alcançar sucesso”, explica ela. Ao mesmo tempo, crianças muito inteligentes e esforçadas, as “nerds”, quase sempre são desvalorizadas, enquanto aquelas que alcançam certo êxito social se tornam motivo de orgulho. “Se o pai vê que o filho é popular, que é procurado pelos colegas, é sinal de que a criança é bem integrada, que ela é feliz. Além disso, a inteligência no Brasil ainda passa pela questão do malandro, do esperto. O nerd não é uma pessoa bem quista dentro da escola”, esclarece Quézia. 

Por isso, em certa medida, essa pesquisa realizada pela Universidade de Queesnland contradiz o estereótipo das crianças (e também dos adultos) que são considerados populares: aqueles mais falantes, que estão sempre no centro da roda. “Pensando nos  mais extrovertidos, eles não necessariamente notam muito os outros porque estão mais preocupados em atrair a atenção para si”, explica Ana Cássia. Além do mais, crianças que, em um primeiro momento, chamam muito a atenção, fazem mais estripulias e são mais ousadas, com o tempo podem se tornar chatas aos olhos dos colegas. “Quando a criança precisa se impor para ser popular, acaba tendo algumas ações de intimidação, não de acolhimento. Nessa percepção de que o popular é aquele que todo mundo valoriza, que as pessoas querem estar junto, alguns colegas podem se sentir intimidados”, completa Quézia. Isso frequentemente é retratado nos filmes: é difícil se aproximar daquele aluno que é capitão do time de futebol da escola, sobre o qual todos falam, aquele que todos os professores e alunos conhecem.

Ao mesmo tempo, uma criança que é extremamente empática e sensível ao outro pode ter problemas se houver uma busca de aprovação pelo grupo. “Tem aquelas crianças que ficam na posição de achar que precisam ser sempre as boazinhas, as compreensivas, quando na verdade não sabem lidar com a sua própria agressividade”, explica Ana Cássia. O problema é que o grupo capta esse jeito e pode usá-lo de maneira perversa. Ou seja: ser compreensivo e sensível ao outro é uma coisa. Ser bonzinho já é bem diferente...

Como a criança aprende a perceber o outro

“A crianças nasce como se fosse o mundo. No relacionamento com a mãe, com a figura cuidadora, é que ela nota que existe um outro. Assim, ela vai ampliando sua capacidade de reconhecer que o mundo existe além de ela mesma”, explica Ana Cássia.  Em outras palavras, é aos poucos que a criança supera seu egocentrismo e começa a perceber que as pessoas ao seu redor têm sentimentos e vontades próprios, que independem de sua existência.  E é claro que os pais podem ajudar nesse processo. A chave está em ajudar o filho a decifrar que por trás das ações existem sentimentos, ou seja, que é preciso aprender a se colocar no lugar do outro para entender por que cada um age de uma forma. “Se a criança consegue olhar o outro sem ser melhor nem pior, aumenta a possibilidade de ela conseguir percebê-lo melhor e aceitá-lo, mesmo que tenha características diferentes da sua”, completa Quézia.

É claro que esse é um aprendizado que deve ser vivenciado no dia a dia. Quando a criança, por exemplo, reclama que um colega a destratou, é preciso conter o impulso de imediatamente sair em defesa do filho e massacrar esse colega (“esse menino não presta”, "essa criança não é boa companhia”, "fique longe dele"). “Se o pai trata a situação colocando o outro como o ruim da história, ele está considerando o filho como o centro do mundo”, explica Ana Cássia. É claro que o pai deve acolher a dor do filho que se sentiu magoado, ferido, injustiçado. Mas, ao mesmo tempo, é preciso estimular a compreensão sobre o outro: talvez seu amigo tenha ficado com vontade de ter um carrinho como o seu, talvez ele esteja passando por um mau momento em casa, talvez tenha se aborrecido com algo que você fez...  Só assim a criança vai aos poucos adquirindo esse olhar, que pode fazer dela uma pessoa querida e preocupada com o próximo.


Fonte: Revista Crescer

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