quinta-feira, 2 de julho de 2015

Estímulo precoce à leitura tem um impacto positivo na formação de novos leitores

Uma pesquisa apresentada no encontro anual da Pediatric Academic Societies (PAS) mostrou que o estímulo precoce à leitura de fato influencia na atividade cerebral, mudando a maneira como o cérebro processa as histórias e aumentando as chances de formar um leitor ávido. O estudo contou com a participação de 19 crianças em idade pré-escolar, de 3 a 5 anos, sendo que 37% delas vieram de famílias de baixa renda. 




Primeiro, o principal responsável por cada criança preencheu um formulário focado em três áreas: leitura entre filhos e pais (incluindo o acesso aos livros, a frequência das leituras e a variedade de obras lidas), interação entre eles (como conversas e brincadeiras) e ensino de habilidades específicas, ou seja, quando o adulto se propõe a trabalhar números, letras, cores, ou algum conteúdo determinado com a criança. Por meio desse questionário, foi possível medir quanto estímulo cognitivo era provido a cada uma das crianças.

Em uma segunda etapa, os pequenos foram colocados para ouvir uma história por meio de fones de ouvido enquanto realizavam um exame de ressonância magnética. Assim, especialistas puderam avaliar quais áreas cerebrais associadas à linguagem eram estimuladas pela narrativa (não havia qualquer tipo de estímulo visual, as crianças apenas ouviam a história).

Os resultados mostraram que, quanto mais consistente era a exposição à leitura em casa, mais áreas cerebrais que suportam o processo semântico (isto é, de atribuição de significado a frases e palavras) foram ativadas pela narrativa. “Estamos ansiosos para mostrar, pela primeira vez, que a exposição à leitura durante o estágio crítico do desenvolvimento, anterior ao jardim de infância, parece ter um impacto significativo, mensurável, na maneira como o cérebro das crianças processa as histórias e pode ajudar a prever o sucesso da leitura”, comenta o autor do estudo, John Hutton, Doutor em Medicina, da Divisão de Pediatria Geral e Comunitária, Centro de Estudos de Leitura e Alfabetização, do Cincinnati Children’s Hospital Medical Center, nos Estados Unidos. A pesquisa constatou ainda que o estímulo precoce se reflete fortemente no desenvolvimento das áreas cerebrais ligadas à elaboração de imagens mentais, que permitem à criança “ver” a história dentro de sua própria cabeça.

Como se dá o desenvolvimento da leitura

O processo de desenvolvimento da leitura tem como base o de desenvolvimento da linguagem, que começa muito antes de seu filho sequer saber o que é um livro. Durante o primeiro ano de vida, o bebê começa a decifrar todo o contexto de expressão emocional intrínseco à comunicação oral: ele observa a testa que enruga sinalizando irritação, os lábios que sorriem demonstrando alegria, a voz que se altera na hora da raiva. Nesse estágio, livros de pano ou plástico, que podem ir à boca sem problemas, com diferentes texturas, cores e até cheiros, podem ser um ótimo estímulo às funções sensoriais. É nessa fase, de 1 a 3 anos, que a criança aprende a falar e desenvolve seu vocabulário, começando a usar as frases dentro de um contexto social. Ao mesmo tempo, outros progressos acontecem: “Uma criança de 3 ou 4 anos já reconhece os desenhos dos livros, graças à maturação da região occipital do cérebro”, explica o neuropediatra Antônio Carlos de Faria, do Hospital Pequeno Príncipe (PR).  É de acordo com o amadurecimento de diferentes regiões cerebrais que o desenvolvimento da linguagem e de competências associadas vai se aprimorando. Assim, pode-se resumir o aprendizado da leitura em três fases distintas:

-  de  4 a 6 anos: estágio visual. É um estágio de pré-simbolização, a criança reconhece números e letras pela forma, por seu símbolo gráfico, mas não pelo que significam.

- de 5 a 7 anos: estágio fonológico. A criança começa a associar os sons aos símbolos que já reconhece, se familiarizando com os sons das letras e identificando-os dentro de uma palavra. Nessa fase, ela começa a ler de forma lenta e silabada: “O pa-to pa-te-ta”, mas sem ser capaz ainda de interpretar plenamente.

- de 6 a 9 anos: estágio ortográfico. A criança já memoriza e reconhece palavras inteiras, o que torna possível realizar uma leitura mais dinâmica.

Por isso, expor a criança a leituras e incentivar o contato constante com os livros não significa que o seu filho tenha de ser alfabetizado antes dos 5 anos. “A criança tem uma idade adequada para passar por todas essas etapas. Me preocupa o apressamento do processo, que é pegar uma criança de 3 ou 4 anos e fazê-la ler”, alerta o neuropediatra.

Ou seja, o estímulo à leitura é de absoluta importância, desde que seja prazeroso. Isso significa que, além de ter o cuidado de verificar se o livro é adequado à faixa etária, também é preciso que ele desperte verdadeiramente seu interesse. “As histórias podem se tornar mais complexas conforme o amadurecimento intelectual. O termômetro é o interesse”, esclarece a coordenadora pedagógica de educação infantil Gisela Plombon, da Escola Dínamis (RJ).

Além disso, é imprescindível fazer do momento da leitura uma oportunidade de troca e interação entre os envolvidos. “Para estimular o interesse da criança, vale brincar com a voz, caprichar nas entonações, nas expressões e nas dramatizações, debater ideias, estimular a adivinhação do final, a criação de outro título, questionar o que ela faria se fosse a personagem, apresentar as ilustrações, observar detalhes muitas vezes não citados”, explica Gisela. “A leitura é um processo muito sistematizado, não há metodologia para ensinar a ler. O maior desafio é transformá-la em um ato prazeroso. A criança aprende mais a ler quando isso é transformado em algo lúdico”, completa o neuropediatra.

E quando a criança não responde aos incentivos?

É claro que sempre existe um desvio padrão: as crianças não amadurecem necessariamente ao mesmo tempo. E quando uma das fases atrasa, a tendência é que as próximas também demorem um pouco mais. No entanto, cada uma das etapas descritas anteriormente deve ser usada como referencial para acompanhar o progresso da criança e, eventualmente, sinalizar que algo não vai bem. “Se a criança passa a janela maturacional e continua tendo dificuldade, vale investigar a causa”, alerta o neuropediatra. O conceito de janela maturacional pode ser pensado como o período em que o cérebro está mais propenso ao desenvolvimento de determinada competência. Quando esse tempo expira, pode ser mais difícil de progredir, por isso vale sempre acompanhar de perto o progresso do seu filho na escola e fazer visitas regulares ao pediatra.


Fonte: revista Crescer

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