segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Amor em três dimensões

Foi a paternidade que despertou no médico Heron Werner a sensibilidade para entender a emoção de um exame de ultrassom. Especialista em medicina fetal, ele criou um meio de transformar o bebê de dentro da barriga em algo palpável para mães e pais

Texto: Cíntia Marcucci | Fotos Ana Rovati


Há quase 12 anos, em um congresso de medicina fetal em São Paulo, os aparelhos que mostravam imagens de ultrassom coloridas e em 3D eram a grande novidade. Todos os médicos e profissionais presentes queriam ver como eles funcionavam, mas o estande da empresa não tinha uma maneira adequada de fazer isso – ou seja, uma barriga com um bebê dentro. O médico obstetra Heron Werner, então com 38 anos, não teve dúvidas: chamou sua esposa Cristina, grávida de seu primeiro filho, e, assim como ele, também especialista em medicina fetal, para testar o aparelho. Só que o bebê não quis ajudar. Ficou de costas o tempo todo, mesmo com todos os esforços dos pais para que ele se mexesse e evitasse esse, digamos, vexame.
“Quando conto essa história, sempre falo que o Enzo já gostava de me contrariar desde aquela época”, brinca Heron sobre o filho, de 11 anos. Se a cena fosse hoje, o menino não teria escapatória: suas imagens no ultrassom seriam impressas em 3D, formando um boneco em tamanho real que todos poderiam ver e tocar. Sim, isso já é possível e essa inovação dos exames obstétricos foi pensada pelo pai dele com ajuda de dois colegas da área de desenho industrial. Tudo começou em 2005, devido a uma parceria do Centro de Diagnósticos por Imagem (CDPI), onde Heron trabalha, e o Museu Nacional da UFRJ. O grupo precisava reproduzir o que tinha dentro dos sarcófagos do acervo do museu sem abri-los. Para isso, utilizou técnicas como tomografia, ressonância magnética, ultrassonografia e impressão 3D (que imprime camadas de materiais sólidos como resina ou um pó similar ao gesso). Assim, foi possível tocar e estudar as reproduções das múmias, preservando as reais intactas.

Passado e futuro
Depois dessa experiência, Heron percebeu que a medicina podia se beneficiar muito da tecnologia de impressão 3D, principalmente as gestantes. Seria mais fácil para profissionais e pesquisadores estudarem o feto, identificando mais rápido e com mais precisão problemas ou doenças e essa foi a primeira função dos “bonecos”. Então, ele se lembrou da emoção que sentia nos dias de ultrassom do Enzo. E pensou nas grávidas com deficiência visual, que não podiam conhecer o filho nesse momento. Com a ultrassonografia e impressão 3D, isso se tornaria possível! Buscou informações e firmou uma parceria com o Instituto Benjamin Constant (RJ), órgão público que atende deficientes visuais, para que eles encaminhassem pacientes, que são tratadas sem custo. “Depois de ser pai, entendo muito melhor a ansiedade das pacientes e sei que lido com elas de forma mais humana. Minha conduta na sala de exame mudou: me preocupo muito mais em despreocupar as pessoas, explicar se está tudo bem ou se não está e por quê”, conta.
O trabalho que Heron desenvolveu foi tão inovador que uma série de fetos impressos por ele e seus colegas em várias semanas de gestação faz parte hoje da coleção permanente do Science Museum, em Londres, e os visitantes podem vê-los e tocá-los. Um deles é o filho de um de seus parceiros de projeto, que estava grávido na época das pesquisas. Já Enzo, embora não tenha como ter sua vida intrauterina registrada dessa maneira (na época os ultrassons 3D não eram salvos com todos os dados necessários), também tem um boneco seu. “Eu fiz os registros dele todo e imprimi um boneco em tamanho bem reduzido, que ele adora mostrar para os amigos”, diz o pai.
Com a agenda lotada de segunda a sexta, Heron dedica o fim de semana para o Enzo

No tempo certo
Toda essa fascinação de Heron com a profissão e suas possibilidades faz compreender melhor suas escolhas na vida pessoal. Assim como muitos casais hoje, Heron e Cristina adiaram a experiência de serem pais. Ambos se formaram no fim dos anos 1980 e foram estudar e trabalhar na França. Casaram-se em 1992, no consulado brasileiro em Paris, no exato dia do impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. Na volta ao Brasil, a carreira e a estabilidade vieram antes dos planos de ter filho. Até que chegou o momento do “sim” ou “não” definitivo e eles perceberam que era uma experiência que queriam muito viver. A gravidez veio rápido. Enzo nasceu em 2001 e mudou a vida do pai para sempre. A esposa e ele decidiram se mudar para mais perto do trabalho para não perder tempo no trânsito e também ganharam novos amigos – a maioria de fora da medicina. “Vim de uma família de médicos e passo tanto tempo trabalhando que meu círculo de amigos só tinha gente da área de saúde. E não adianta: os papos acabavam caindo para casos e pacientes. O Enzo me proporcionou conviver com outras pessoas, pais de amigos deles não médicos, e isso é muito bom! Você amplia seus horizontes, conhece outras opiniões. Além de ser prazeroso, ajuda até a ter ideias novas em seu próprio meio profissional ”, diz.

Ana Rovati
Andar de bicicleta é um dos passeios preferidos dos dois
Com pais e tios médicos, é de se perguntar se Enzo vai seguir os mesmos passos da família. Para Heron, o garoto tem mais interesse pelas artes gráficas ¬ e o pai apoia! “Meu filho criou a capa de um dos meus livros e o deixo montar alguns slides das apresentações que faço.” Mas os dois também compartilham paixões: aos sábados pela manhã, fazem aulas de krav magá, um tipo de defesa pessoal, e, nas tardes e aos domingos, passeiam de bicicleta no Aterro do Flamengo. E, como não poderia deixar de ser para quem mora no Rio, vão à praia sempre que dá. Mas a proposta é que esse tempo juntos aumente em 2013. “Depois que se torna pai, você se dá conta da importância de cuidar da sua família . Sempre fiquei até à noite no consultório, mas, agora, tento parar de trabalhar às 17 horas para ir para casa. Nem sempre dá. Hoje eu seleciono melhor os congressos dos quais participo, antes ia a todos, mas estou em uma fase de terminar de escrever mais um livro e isso acaba tomando tempo. Eu ainda não consegui liberar todo o tempo que meu filho merece. Está nas minhas metas de ano novo. E não vou desistir dela enquanto não se tornar realidade.”


COMO FUNCIONA A IMPRESSÃO DO FETO EM 3D
Primeiro, a paciente deve fazer ultrassom em aparelhos que gerem imagens 3D e as informações do exame precisam ser salvas com todos os parâmetros numéricos, não só com as imagens. Esses dados são enviados ao Instituto Nacional de Tecnologia (RJ), que trabalha as informações e manda para impressoras. Nelas, o feto é “calculado” e dividido em camadas. Cada uma vira uma impressão. Mas, em vez de tinta, a impressora usa um material sólido, como um pó similar ao gesso ou um tipo de resina. Então passa a reproduzir cada camada e elas vão se unindo, gerando o molde perfeito. Em 24 horas, está pronto! Há cerca de dois meses, grávidas de qualquer lugar do mundo podem enviar as informações e fazer seu bebê em 3D. Os custos ficam em cerca de R$ 600, dependendo do material usado e da idade gestacional, e dá para guardar o molde para o resto da vida.


Fonte: Revista Crescer

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