domingo

Grávida e soropositiva

Independente do diagnóstico dessa doença, que continua sendo um tabu, muitas mulheres têm o desejo de ser mãe. A gestação das portadoras de HIV é de risco e exige tratamento médico especializado, mas pode ter final feliz: um bebê sem o vírus

Tenho duas filhas e estou grávida de gêmeos. Eu e meu marido queríamos muito engravidar e planejamos nossa primeira filha. Mas, no sétimo mês, descobri que era soropositiva.” A notícia foi um choque para a vendedora ambulante Silvia*, 31 anos, já que o exame de sangue feito no primeiro trimestre não detectou o vírus HIV. A primeira providência foi parar o pré-natal comum, que fazia em um posto de saúde em sua cidade, Votorantim, interior de São Paulo, para procurar o centro de atendimento especializado em Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e aids mais próximo, em Sorocaba. “Foi muito difícil porque minha família é bastante fechada. Eu não queria falar para ninguém, mas também não podia esconder.” A doença nunca se manifestou em Silvia e ela só precisou tomar medicação durante as gestações das suas duas filhas mais velhas para não transmitir o vírus para as meninas, hoje com 2 e 4 anos. O marido, que também descobriu ser portador, está usando o coquetel de remédios há um ano.

Como toda gestante soropositiva, além da medicação, Silvia precisou tomar várias outras medidas para não transmitir a doença para os filhos. A mais difícil delas foi não poder amamentar. Suas filhas receberam fórmula infantil do serviço público durante os primeiros seis meses de vida, período recomendado para o aleitamento materno exclusivo. “Foi a parte mais difícil. As pessoas me perguntavam se eu era a mãe delas e ficavam me olhando feio porque eu não amamentava. Perguntavam o porquê e eu inventava desculpas, dizia que não tinha leite.” Mas Silvia tinha. Agora, grávida de seis meses de dois meninos, ela não quer passar pelo mesmo sofrimento e planeja tomar injeção para inibir a lactação. “Já pedi a receita para o meu médico porque das outras vezes tive muita dor. O leite empedrava, não conseguia encostar no meu peito!”

A gravidez de mulheres soropositivas tem menos riscos se for planejada desde o início. Para que tudo corra bem, os pais precisam estar com a imunidade estável, respondendo ao tratamento, sem infecções genitais e com carga viral indetectável, ou seja, uma quantidade muito pequena de vírus na corrente sanguínea – como provavelmente foi o caso de Silvia no início da primeira gestação, quando o exame não acusou a presença do HIV. “As pessoas que estão doentes normalmente não têm vida sexual ativa nem pensam em gravidez, mas aquelas que têm o vírus e estão bem de saúde podem e devem fazer o planejamento reprodutivo. Hoje elas têm total suporte para isso”, afirma Waldemar Carvalho, ginecologista e obstetra do Centro de Reprodução Assistida em Situações Especiais, que atende casais HIV positivos, e do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids do Estado de São Paulo. Ele atende casais sorodiscordantes (apenas um é portador) e soroconcordantes (os dois são portadores) que querem ter filhos e, quando apenas o homem tem o vírus, ele indica tratamentos que diminuem ainda mais as chances de contágio do bebê, como a lavagem de esperma, uma purificação do sêmen, seguida de inseminação artificial.

Estar preparada para enfrentar o HIV na gravidez é a melhor forma de lidar com possíveis danos que ele pode trazer para a mãe e para o seu bebê. O probema é que muitas mulheres descobrem que são soropositivas apenas ao fazer o exame de sangue no pré-natal, segundo a enfermeira Maria Angela Silva Landroni, do Serviço de Assistência Especializada em DST/Aids de Santana, bairro da zona norte de São Paulo, ou engravidam sem planejar. Silvia planejou sua primeira gestação, não as duas outras. Mas há mulheres que sabem estar infectadas e cultivam a vontade de ter filhos. “Elas têm os mesmos desejos que outras mulheres e a maternidade é um deles. Os profissionais que as acompanham precisam compreender e possibilitar que essa gestação ocorra no melhor momento e da melhor forma possível.”

99% DE CHANCE DE NASCER SEM O VÍRUS
Segundo dados do Ministério da Saúde, 47.705 soropositivas engravidaram no Brasil entre 2000 e 2009, número que vem aumentando expressivamente. De 2000 para 2009, ele quase duplicou: foi de 1.820 para 3.136 gestantes por ano. Ao mesmo tempo, a taxa de transmissão de mãe para filho, chamada de vertical, caiu 36,6% de 1998 a 2008 e hoje a estimativa dos médicos é de que, com o tratamento adequado, menos de 1% dos bebês seja infectado pela mãe. Isso pode acontecer durante a gestação (pela placenta), no trabalho de parto, no momento do parto e pelo leite materno, durante a amamentação, que é contraindicada. Sem o acompanhamento médico adequado e a medicação, a chance de transmissão para o bebê é de cerca de 20%, de acordo com estimativas da literatura nacional e internacional.


Ter que fazer o tratamento durante a gestação é um problema para Silvia. “É horrível porque eu tenho muitas reações. Tenho sono durante o dia, insônia à noite, náusea e até pesadelos. Conversei com outras pacientes e elas não sentem isso. Até me consultei com uma psicóloga da clínica para ter orientações.” O acompanhamento pré-natal inclui, além de todos os exames de rotina, alguns específicos de sangue que medem a carga viral e a contagem das células que determinam a infecção da pessoa, chamadas de CD4. O ideal é fazer um por trimestre. O resultado desses exames é que vai definir a via do parto, que pode ser normal, se a quantidade de vírus presente no sangue estiver próxima a zero. Silvia teve duas cesáreas, por indicação do médico, já que o contato do bebê com as secreções e o sangue da mãe no parto vaginal aumenta o risco de transmissão.

A medicação que combate o vírus, antirretroviral, deve ser tomada a partir da 14ª semana de gestação ou assim que a grávida descobrir que tem o vírus. Mesmo que isso aconteça em um estágio avançado da gravidez, o tratamento continua sendo eficaz. A maior preocupação é com os efeitos do tratamento no desenvolvimento do bebê. “O único antirretroviral que comprovadamente traz risco de má-formação é o Efavirenz, que é um dos mais utilizados e não é indicado para as grávidas. Mas, no geral, nós ainda não sabemos quais são os efeitos colaterais dessas medicações a longo prazo”, explica Rodrigo Zilli, infectopediatra e assessor técnico do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde. Por isso, é importante continuar o acompanhamento médico após o nascimento da criança.

Se a mãe estiver bem e saudável, como Silvia, ela pode parar de tomar o coquetel assim que o bebê nascer. Antes do parto, ela recebe um soro injetável com um medicamento chamado AZT, para diminuir ainda mais o risco de transmissão. Nas primeiras horas de vida, o bebê toma um xarope com esse mesmo remédio e o tratamento continua por mais seis semanas. Não há efeitos colaterais fortes, mas ele pode causar anemia leve e aumento de enzimas do fígado, chamada de hepatite sem sintomas.

Depois de um mês, é feito o primeiro exame de sangue para diagnosticar se a criança tem ou não o vírus HIV, embora o resultado ainda não seja decisivo. O segundo é feito depois de quatro meses. Se os dois forem negativos, provavelmente ela não foi infectada, mas é preciso esperar completar um ano de vida para ter certeza. Caso um dos exames dê positivo, ele é repetido, e, se o diagnóstico for confirmado, o bebê já começa o tratamento com coquetel de antirretrovirais. Essa espera é angustiante para Silvia. “É a minha maior preocupação em estar grávida de novo. Saber que vou ter que passar por tudo outra vez. Ficar um ano na expectativa, levando a criança para fazer exames, expondo ela a isso.” Já é a terceira vez que ela faz todo o processo e, apesar de se lembrar muito bem da angústia, a esperança de ter mais dois filhos sem HIV é uma motivação. “O tratamento é difícil, mas é muito importante e é realmente eficaz. Minhas duas filhas estão aí para comprovar, saudáveis e felizes.” Não há maior recompensa para uma mãe.



Cuidando de crianças com hiv
Em seu novo livro, Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, relata os 21 anos de sua ONG, que atende crianças e adolescentes carentes com aids no Rio de Janeiro

Por Ana Paula Pontes

“Vejo nas crianças da Viva Cazuza um milagre. Elas salvaram a minha vida, elas são a continuidade de Cazuza, que revive em cada sorriso, cada brincadeira, cada arte, cada sonho.” É esse tom de homenagem às crianças soropositivas da ONG (e ao filho) que permeia o novo livro de Lucinha Araújo, O Tempo Não Para – Viva Cazuza (Ed. Globo, R$ 39,90). Na obra, ela conta a rotina e trajetória da ONG, desde a sua idealização, a reforma da casa, a primeira criança a chegar, a primeira a morrer, a luta contra o preconceito, a saudade do filho. A seguir, um trecho da entrevista que ela deu à CRESCER.

CRESCER: O que foi decisivo para você criar a Viva Cazuza?

LUCINHA ARAÚJO: A necessidade de dar um sentido à minha vida depois da morte do meu filho. João [o marido] tinha seu trabalho e eu nunca fui mulher de ficar de braços cruzados.

C.: Vinte e um anos depois e tantas histórias. Qual é o balanço da ONG?

L.A.: O balanço é sempre positivo, apesar das dificuldades, dos tropeços, erros e acertos. Quando olho para trás, vejo que valeu a pena.

C.: Você teve receio de que, ao criar a ONG, poderia sofrer ainda mais com a ausência de Cazuza, por ser uma lembrança diária de sua luta pela vida?

L.A.: Foi justamente o oposto. Por ele não poderia ter feito mais nada, a não ser preservar sua memória. A Viva Cazuza é a melhor maneira, cuidando de pessoas que não tinham condições financeiras, como nós, para custear uma doença tão cara como essa.

C.: Quais conselhos daria a uma mãe que tem um filho com uma doença sem cura?

L.A.: Os mesmos que daria para qualquer mãe: tratá-lo e amá-lo incondicionalmente na impossibilidade de trocar de lugar com ele.

Fonte: Revista Crescer

Um comentário:

  1. Meu nome é feliz, dos EUA, eu quero testemunhar de como eu tenho curado de HIV AIDS. Eu tenho vivido com esta doença mortal para o passado 11 meses, eu fiz tudo o que posso para curar esta doença, mas todos os meus esforços foram abortiva até que eu encontrei um velho amigo meu que me contou sobre um Herbalist Afircan que usam ervas e raízes para curar todo o tipo de doenças, embora eu nunca acreditei que ele pode curar o HIV, mas eu decidi dar-lhe uma tentativa, quando entrei em contato com ele, ele me ajudou a expulsar o vírus do meu corpo, baixa e eis que, quando eu fui para um check-up i foi-me dito que eu sou negativo. Contacte esta grande Herbalist através deste e-mail okonofuatem99@gmail.com e okonofua_solution_tem99@hotmail.com ou você pode entrar em contato comigo para obter mais brilho me add no facebook happyaa4@gmail.com.

    Ones agradecer novamente a você doutor Paul Emen i vai manter testemunhando sobre você por salvar minha vida.

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