quarta-feira, 31 de maio de 2017

O que é permitido (ou não) na quarentena

O período imediatamente posterior ao parto não é nenhum bicho de sete cabeças, mas exige alguns cuidados para assegurar uma recuperação sem estresse. Saiba o que a nova mãe pode ou não fazer nessa fase




Arcar com a responsabilidade de zelar por uma vida, totalmente dependente, é um desafio e tanto para a nova mãe. Mas não é o único. Existe ainda a preocupação de lidar com as novas emoções e de restabelecer o corpo, que encarou muitas transformações ao longo da gestação. Para se ter uma ideia, o útero de uma mulher que nunca teve filhos pesa cerca de 90 gramas e tem o tamanho de uma pera. No último trimestre da gravidez, ele pode chegar a um quilo para abrigar um bebê de 3,5 kg e 52 cm. Isso significa que o abdômen cresce até 11 vezes! Por essa e outras razões, é preciso respeitar um período de cerca de 40 dias de recuperação, depois de dar à luz. É o chamado puerpério, conhecido como resguardo ou quarentena, em que nem tudo é permitido – mas nem tão proibido como alardeavam nossas avós.

Essa fase, digamos, peculiar começa com a queda brusca dos níveis hormonais no pós-parto, capaz de provocar desânimo e cansaço, o que torna imprescindível o apoio do pai e da família. Aproximadamente 80% das novas mães experimentam sentimentos de tristeza e insegurança. Esse estado, que costuma durar até 15 dias, é classificado pelos médicos como baby blues. Se o mal-estar persistir e vier associado a problemas de apetite e de sono, falta de concentração e de interesse em qualquer atividade, pode se tratar de depressão pós-parto, que requer auxílio médico.

Nos primeiros 42 dias, é quase impossível engravidar e a chance continua baixa enquanto a mulher amamentar de forma exclusiva, por livre demanda, pois isso inibe a ovulação. Mas, a partir da 7ª semana, o risco de gravidez aumenta. Por isso, a mulher deve adotar um método contraceptivo que não interfira no leite, como o DIU de cobre ou com progesterona ou a minipílula, à base do mesmo hormônio.
Em relação às condições físicas da nova mãe, nos primeiros dias costuma aparecer um sangramento de coloração avermelhada que, ao longo das semanas, passa a um tom marrom, amarelado e, por fim, transparente. O fluxo será mais intenso se o parto tiver sido normal. Isso porque a retirada da placenta estimula a expulsão dos tecidos remanescentes, promovendo a regeneração uterina.

Esse processo de recuperação torna o sexo proibido no puerpério, mas não significa que você não possa namorar seu parceiro. Use a imaginação e invista em carícias, masturbação, sexo oral... Tente não encanar com sua forma física nesse momento. Lembre-se de que você terá ajuda extra para resgatar o antigo corpo: o aleitamento, que não só favorece o recém-nascido, como induz a liberação de hormônios para que o útero retorne ao tamanho normal. “Quando a criança suga o seio, a glândula hipófise, localizada no cérebro, recebe um estímulo para produzir o hormônio ocitocina que, entre outras funções, promove a redução do volume abdominal”, esclarece o ginecologista Walter Amaral, da Escola Superior de Ciências da Saúde (DF).

Devido a esse processo, é normal sentir cólicas nas primeiras semanas. Os benefícios de oferecer o peito vão além: um estudo da Coordenação dos Institutos de Pesquisa da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo provou que amamentar reduz o risco de câncer de mama, de ovário e osteoporose.

Outra boa estratégia para recuperar a forma e a saúde física é manter uma dieta equilibrada. A ingestão de minerais, como o ferro e o cálcio, continua fundamental. Portanto, as carnes, principalmente as vermelhas, e os laticínios são mais do que bem-vindos. Também é importante beber de dois a três litros de água por dia, especialmente um copo grande antes e outro depois de amamentar. “Frutas com cascas, como maçã, ameixa e pera, ajudam a prevenir ou a reverter a constipação, comum nessa fase por conta do útero aumentado, que comprime o intestino”, esclarece o obstetra Artur Dzik, diretor da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana.

Evite refeições pesadas e gordurosas, porque elas passam para o bebê pelo leite e o sistema digestivo dele ainda não está preparado para alimentos complexos. Segundo o ginecologista Alberto D’Áuria, diretor médico do Banco de Sangue do Cordão Umbilical (SP), alguns itens devem ser evitados no primeiro mês por provocarem cólicas na criança: café, chocolate, refrigerantes à base de cola, verduras escuras, talo de alface, feijão e tomate.

CRENÇAS POPULARES

Mas também não precisa ficar só na canja de galinha durante toda a quarentena. Esse é um mito antigo. O prato é saudável e equilibrado, mas não precisa ser o único do cardápio! Aliás, muitas lendas ainda pairam sobre o imaginário popular. É o que confirma uma análise de entrevistas da Unifesp feita com 300 mulheres que haviam acabado de ter filhos. As respostas revelaram que procedimentos sem validação científica até hoje pautam o comportamento das mães. Um exemplo é acreditar na necessidade de ficar 13 dias sem lavar a cabeça, para não interromper o sangramento no pós-parto e, assim, correr o risco de morrer ou ficar louca.

Uma revisão de estudos realizada na USP de Ribeirão Preto sugere que essa e outras crenças têm origem em uma tese antiga e infundada de que o útero teria comunicação com todas as partes do corpo e a presença da menstruação seria necessária para manter o organismo funcionando bem. Também por isso algumas mulheres creem que precisam ficar na cama por semanas, após dar à luz, e evitar a ingestão de frutas ácidas.

Para deixar claro quais são, de fato, as precauções necessárias nessa fase, CRESCER consultou um time de especialistas. Leia na página seguinte, mas considere que o estado geral da mulher é o melhor parâmetro para determinar o que pode ou não ser feito.


O QUE É PERMITIDO (OU NÃO) NA QUARENTENA


PARTO NORMALCESÁREA
DirigirÉ desaconselhável no primeiro mês por atrapalhar a cicatrização do períneo, região entre o ânus e a vagina, principalmente se ele tiver sido submetido a uma epistomia –pequeno corte para facilitar o parto normal. Caso a mulher não sinta nenhum incômodo, pode dirigir a partir de duas semanas.Não costuma ser permitido no primeiro mês, porque pode atrapalhar a cicatrização das suturas abdominais.
SexoProibido no primeiro mês não só porque a mulher pode sentir dor, mas porque existe o risco de infecção, já que o processo de cicatrização pós-parto ainda não está finalizado. Além disso, a produção do hormônio prolactina, que favorece a produção do leite, diminui a libido e a lubrificação vaginal.A quarentena impõe 30 dias de abstinência sexual para recuperação do organismo e do sistema reprodutor. Caso contrário, os riscos seriam os mesmos já descritos no parto normal, somados à sobrecarga na região dos pontos cirúrgicos.
Atividade físicaExercícios pesados, como corridas, são proibidos nos primeiros 45 dias, porque o esforço pode atrapalhar o processo de recuperação. Caminhadas leves, de 20 a 30 minutos, podem ser feitas após o primeiro mês. Esse tempo é variável e depende do condicionamento físico da mulher antes de engravidar. Para nadar confortavelmente, sem risco de escapes de sangue, é melhor esperar dois meses.A volta à atividade física pós-cesárea é bem mais complexa, por se tratar de um processo cirúrgico como outro qualquer. Exercícios pesados, como corridas, precisam ser evitados por três meses. Caminhadas e natação estão liberadas a partir de dois meses.
Carregar pesoNão é recomendado no primeiro mês. Mesmo depois, é bom sentar em uma cadeira para levantar o filho mais velho, fazendo força no braço, e agachar com as costas eretas para pegar uma sacola no chão. O objetivo é poupar a coluna, fragilizada pelo peso que sustentou durante a gravidez.Proibido no primeiro mês pelo cuidado com os pontos cirúrgicos. Mesmo depois desse período, vale seguir as recomendações referentes ao parto normal.
Subir
escada
Se não houver dor, não existe contraindicação.Não há nenhum problema se não houver dor.
DepilaçãoNada impede que a mulher se depile nesse período.Não existem contraindicações.
Cuidados com o cabeloEles ficam enfraquecidos e costumam cair, devido à queda hormonal ocasionada pela perda da placenta. Cerca de 90 dias depois do parto, o processo atinge seu auge e, passado esse período, a tendência é que as madeixas se normalizem. Em relação às tinturas, o ideal é adiar o procedimento enquanto a mulher estiver amamentando, porque os produtos químicos podem conter amônia ou formol e são perigosos para o bebê, intoxicando-o. A pintura à base de henna não oferece risco.As recomendações são idênticas às do parto normal e valem para todas as mulheres que amamentam.
Absorvente internoNão existem restrições.Não há problema em usá-lo.

Fonte: revista Crescer

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