segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Olhos do recém-nascido: é preciso pingar nitrato de prata após nascimento?


No Brasil, desde 1977, é obrigatória a aplicação de uma solução de nitrato de prata a 1% em cada um dos olhos do recém-nascido no prazo de uma hora após o nascimento. A prática é realizada para a prevenção da conjuntivite gonocócica, causada pela bactéria gonococo, que pode ser transmitida pela mãe durante o nascimento, por contato vaginal. O método surgiu em 1881 e reduziu a incidência da conjuntivite neonatal no final do século 19, na Europa, quando o problema acometia mais de 10% dos bebês e era a principal causa de cegueira infantil, segundo um levantamento realizado pelo setor de farmacovigilância do Centro de Vigilância Sanitária da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.

Hoje em dia, entretanto, a técnica desperta discussão: se os riscos de contágio se referem ao parto normal, por que a substância também é aplicada em caso de cesárea? A neonatologista Graziela Lopes del Bem, chefe da UTI neonatal do Hospital e Maternidade São Luiz (SP), explica que o procedimento acaba sendo realizado de forma sistêmica. “Há também o argumento de que, se a bolsa estiver rota, existe perigo de o bebê se contaminar, mesmo durante uma cesárea”, avisa.

A ameaça, porém, pode ser neutralizada durante a gestação, com um pré-natal adequado. Segundo o obstetra Eduardo Zlotnik, vice-presidente do Hospital Albert Einstein (SP), o acompanhamento permite combater não só o gonococo como outras bactérias, a exemplo da clamídia, que também desencadeiam conjuntivite e não são eliminadas com nitrato de prata.

A polêmica referente ao uso do colírio também envolve a possível ocorrência de um quadro irritativo, classificado como conjuntivite química. Mas, para a neonatologista Maria Fernanda Branco de Almeida, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), secar o excesso do produto, com algodão ou gaze, logo após a administração, minimiza essa probabilidade, pois evita que grandes quantidades dele se acumulem, agredindo o tecido.

Diante de tanta controvérsia, a mãe tem o direito de recusar o procedimento e assinar um termo de responsabilidade, oferecido pelo próprio hospital. Normalmente, a comprovação da ausência de doenças ou do tratamento delas durante o pré-natal serve de justificativa para dispensar o cuidado. A professora de canto Monica d’Ávila, 41 anos, mãe de três meninas, fez essa opção. “Eu não tinha gonorreia e minha filha nasceu de cesariana. Com os exames negativos anexados, escrevi uma carta ao hospital, proibindo o uso do nitrato de prata.”

Fonte: revista crescer

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