sexta-feira, 24 de julho de 2015

Mães que trabalham fora estimulam as filhas a conseguir cargos melhores e a estudar mais, revela estudo

Pesquisa revelou também que os meninos, quando adultos, ajudam mais nas tarefas domésticas e gastam um número maior de horas cuidando de seus próprios filhos

Mães que trabalham fora são exemplo (Foto: Thinkstock)
Você sai com o coração apertado de casa cada vez que deixa as crianças para ir trabalhar? Pergunta-se por que precisa passar tantas horas do dia longe dos seus filhos e considera até abandonar a carreira ou mudar de área para poder trabalhar de casa? Não precisa ser tão dura consigo mesma: as crianças também podem aprender muito com uma mãe que trabalha fora. Uma pesquisa realizada em 24 países desenvolvidos pela Harvard Business School revelou que filhos de mães que trabalham se saem melhor no futuro. Segundo os resultados, as meninas, ao se tornarem mulheres, têm mais chances de conseguir cargos em posições privilegiadas e são mais bem educadas – porque frequentam a educação formal por mais tempo. Já os meninos, quando se tornam homens, ajudam mais em casa e tendem a passar mais tempo cuidando de seus próprios filhos.

“Há muito poucas coisas, das que nós sabemos, que têm um efeito tão claro sobre a desigualdade de gêneros como ser criado por uma mãe que trabalha", diz Kathleen L. McGinn, professora de Administração de Empresas na Harvard Business School (HBS), que conduziu o estudo com Mayra Ruiz Castro, pesquisadora da HBS , e Elizabeth longa Lingo, do Colégio Mt. Holyoke. O que as motivou foi reconhecer que enquanto se fala muito em desigualdade de gênero dentro das empresas, pouca atenção se presta ao que acontece dentro das casas.

Por isso, com o intuito de investigar as influências das mães que trabalham na formação das crianças, as pesquisadoras utilizaram informações do International Social Survey Programme, um consórcio global de organizações que conduz pesquisas na área de ciências sociais. Elas estudaram as respostas dadas por 13.326 mulheres e 18.152 homens ao questionário “Family and Changing Gender Roles” (“Família e Papéis de Gênero em Mudança”, em tradução livre), entre 2002 e 2012. O formulário requisitava informações gerais sobre questões relacionadas ao gênero, o cotidiano em casa e os caminhos profissionais. Mas a principal pergunta sobre a qual as especialistas se debruçaram foi: “Sua mãe já trabalhou por remuneração depois que você nasceu ou até os seus 14 anos?”.

A boa influência para os filhos

Algumas possibilidades podem justificar por que as mães que trabalham inspiram o futuro sucesso dos filhos. A primeira é que as crianças aprendem por imitação. Ou seja, uma vez que a menina tem como exemplo uma mãe que se dedica ou trabalho, ela pode, sim, se espelhar nesse padrão quando chegar à vida adulta. “Isso independe do tipo de trabalho da mãe ou de quanto ela trabalha ou de quanto ganha. O fato da mãe trabalhadora ser um modelo permite à filha compreender que está tudo bem em trabalhar e também está tudo bem em não precisar se dedicar integralmente às tarefas domésticas”, explica psicóloga e psicopedagoga Cynthia Wood, da Clínica Crescendo e Acontecendo (SP).  No entanto, é preciso lembrar que o tipo de relação que essa mulher nutre com o seu trabalho, a maneira como ela encara sua jornada profissional, é que vai determinar o tipo de influência que os filhos recebem. “Se a criança é filha de uma funcionária que se mata o tempo todo para trabalhar e não traz algo positivo em relação ao seu trabalho, que estímulo ela vai ter? Se a mãe reclama o tempo todo, a criança vai aprender que trabalhar é ruim”, alerta Quézia Bombonatto, diretora da Associação Brasileira de Psicopedagogia. Mas há outros fatores também podem ser citados para explicar o resultado da pesquisa. Um deles é a maior facilidade das mães que estudaram em exigir mais empenho acadêmico dos filhos, outro pode ser um sentimento de competição da filha buscando superar seus pais no futuro. 

Para os meninos a mesma máxima de ter um modelo a seguir também é válida. “Um pai que apoia o trabalho da mãe e se mostra disposto a ajudar em casa também é um modelo que os meninos veem como incentivo”, aponta Cynthia. A pesquisa indica que a participação das mulheres no mercado de trabalho aumenta quando há suporte dos maridos em casa. Ou seja, ao verem os pais mais envolvidos com as tarefas domésticas, os meninos entendem que precisam colaborar para que as coisas em casa funcionem e assumem essa responsabilidade no futuro. Mesmo assim, vale lembrar que, em muitos lares, a falta de colaboração dos maridos não atenua a jornada feminina. “Quando a mulher tem suporte, isso é um facilitador. Isso não quer dizer que seja algo necessário. Muitas mulheres fazem jornada dupla, tripla e vencem pela vontade de vencer”, ressalta Quézia.

Mulheres que trabalham: uma questão de gênero

“Mesmo não sendo determinante, é inegável que um modelo dentro de casa que representa mais igualdade entre os sexos ajuda os filhos a compreender melhor e desenvolver características mais alinhadas com as demandas atuais, e isso também é verdade no Brasil”, explica Cynthia. Apesar das mudanças nas próprias dinâmicas familiares, causadas pela necessidade das mulheres trabalharem para contribuir com o orçamento e de haver uma redução no número de filhos, ainda há um longo caminho a ser percorrido no que diz respeito à igualdade de gênero. Felizmente, as novas gerações de pais e mães parecem estar trilhando um caminho mais igualitário. “Há uma diferença entre os casais mais velhos e os jovens. Entre os jovens, já existe a divisão de tarefas e a troca efetiva. Não se tem mais aquela cobrança de que tudo que é de casa é só da mulher. Embora, é óbvio, ainda estamos alguns passos atrás de países desenvolvidos”, explica Quézia.

Qualidades pessoais, qualidades profissionais

O mais bacana é que, além de dar um bom exemplo aos filhos tanto na vida acadêmica como profissional, mães e pais que trabalham fora também podem fazer o caminho inverso e levar para seu ambiente profissional muito do que aprendem em casa, com as crianças. Outro estudo, realizado pela Carrer Bulding, mostrou que a maternidade e a paternidade podem agregar uma série qualidades a homens e mulheres que possuem grande valor no mercado de trabalho. A número 1 da lista é aprender a ter paciência. Mas também são citadas outras competências importantes como ser multitarefas, gerenciar melhor o tempo, administrar conflitos...

O curioso é que, apesar de estarem cientes de terem desenvolvido essas habilidades, muitos profissionais não as citam como pontos positivos na hora de fazer uma entrevista de emprego, por exemplo. Isso pode ser explicado pelo fato de muitos candidatos evitarem expor sua ligação com os filhos, temendo que isso possa passar uma impressão mais negativa que positiva. “Filhos representam imprevistos, demandam momentos que necessitam de atenção integral, podem exigir horários flexibilizados, dentre outras questões que podem supostamente interferir na escolha de um profissional”, explica Cynthia.

Por isso, vale parar para refletir um momento e analisar quanta coisa você já aprendeu com os seus filhos e apropriar-se dessas qualidades. “A paternidade e maternidade trazem um grande crescimento, mas é a conscientização dessas mudanças que vai fazer a diferença”, alerta Quézia. Por isso, substitua a culpa de estar fora por tudo aquilo que você e seus filhos têm a ganhar de positivo com a experiência de ser uma mãe-profissional.  Afinal, ser mãe (ou pai) é um trabalho que exige dedicação constante, em jornadas intermináveis, sem férias, sem 13º, sem promoção, mas com um bocado de lições e de amor como remuneração.


Fonte:http://revistacrescer.globo.com/

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