terça-feira, 23 de junho de 2015

Bela Gil dá dicas de como fazer as crianças comerem bem - e sem traumas

"Bebês podem demorar até 20 vezes para gostar de um alimento", diz a apresentadora do Bela Cozinha, no canal GNT


Bela Gil dá dicas de como fazer as crianças comerem bem e sem traumas (Foto: Divulgação/GNT)
Com seu sorriso aberto e uma porção de receitas ousadas e saborosas, Bela Gil consegue desfazer a cara feia de muita gente quando o assunto é comida saudável. Seu programa de culinária, Bela Cozinha, no GNT, fez tanto sucesso que rendeu um livro, Bela Cozinha – As Receitas, um programa na Rádio Globo, o Bela Infância, e a coluna Dia de Feira, que estreou em abril na revista Casa e Comida, da Editora Globo. E pensar que sua paixão por culinária surgiu mais por necessidade do que por vontade, quando foi morar aos 18 anos em Nova York: “Comecei a cozinhar porque achava que em casa comeria melhor, mais saudável”. Hoje, aos 27 anos, a baiana formada em Nutrição e Ciência dos Alimentos pela Hunter College (EUA), com especialização em culinária natural no Natural Gourmet Institute (EUA), garante que é possível alimentar-se bem, de maneira saudável e gostosa – e não só os adultos. Sua filha Flor, 6 anos, é a prova de que criança pode e deve ter uma alimentação rica, balanceada e variada.

Qual receita de família vocês fazem até hoje quando se reúnem?
O capeletti in brodo da minha avó materna, com recheio de carne de porco ou vitela e caldo de carne. Nos últimos dois finais de ano, tivemos também como opção uma adaptação que fiz com ela. Troquei a farinha branca pela integral, o recheio e o caldo de carne pelo de legumes.

Você teve uma alimentação mais restrita quando era criança?
Não, era bem livre. Mas tinha um exemplo bom em casa. Meus pais sempre se alimentaram superbem. A gente costumava observar meu pai, que é macrobiótico, comer aquelas comidas diferentes – arroz integral, com legumes e tofu – na cumbuquinha, com hashi. Mas a gente comia arroz branco mesmo.

A apresentação é importante para introduzir os alimentos às crianças?
A principal maneira de fazer com que as crianças comam bem é educar. Desde cedo, é importante apresentar os vegetais. Os bebês podem demorar até 20 vezes para gostar de um alimento. Minha filha sempre comeu brócolis, couve-flor, pedacinhos de inhame, vagem na mão. Dei cenoura para ela morder quando os dentes estavam crescendo. Ela conhece o formato, a cor, sabe o que cada alimento é. Não tem medo de ser apresentada para nada, exatamente por conta da boa introdução alimentar que teve.

E no caso de criança mais velha, que já tem uma bagagem alimentar construída?
Reintroduzir é mais difícil. Uma boa opção é trabalhar o formato, colocar no suflê, em uma omelete e, aos poucos, ir apresentando: “Olha só, você acabou de comer o maxixe, acabou de comer um quiabo”. E, assim, a criança percebe que não é tão ruim quanto pensava. É dessa forma que se quebra o medo de experimentar o desconhecido.

Tem algum alimento que sua filha se recusou a comer?
O único alimento que ela teve mais dificuldade de incorporar, que por livre e espontânea vontade disse não, foi o mamão. Mas hoje ela come. Experimenta de tudo.

Você cozinha junto com a Flor?
Muito. O prato favorito dela é macarrão ao pesto. Dela e do meu marido. Ela fica comigo na cozinha, gosta do trabalho manual que cozinhar pede: cortar os alimentos, manusear, mexer a panela, ligar o fogo. Muitas vezes, a gente deixa as crianças de lado nessa tarefa, porque é perigoso. Mas acredito que, com cuidado, orientação e atenção, a criança pode experimentar a cozinha em vários sentidos. Levá-la para esse ambiente faz com que ela se sinta mais responsável, independente, confiante... São elementos que as crianças precisam para ser felizes. É mais um incentivo para comerem bem. Sinto que essa intimidade com a cozinha contribui muito para o fato de a Flor se alimentar bem. Quando há um prato novo, que quero que ela prove, geralmente cozinho junto com ela.

Como são as refeições da Flor?
No café da manhã, normalmente, ela toma uma vitamina que leva banana, morango, um pouco de linhaça e água ou leite de amêndoa. No lanche da manhã, monto um sanduíche de pesto ou de tahine, com algumas castanhas e uma fruta. Ela almoça na escola, geralmente, arroz integral, feijão, uma proteína e legumes. À tarde, quando chega, sempre belisca algo, mas não come muito para não perder o apetite. No jantar, é sopa de legumes, repeteco do almoço ou um macarrãozinho.

O que você acha que não pode faltar na lancheira de uma criança?
Uma fruta, sementes – como pistache, amêndoa, castanha-do-pará –, um sanduíche, que pode ser um pão com pesto ou com tahine, pãozinho de mandioquinha, inhame. Para beber, água ou chá, que são as opções mais saudáveis para levar. Suco de caixinha é basicamente a mesma coisa que refrigerante: tem quase a mesma quantidade de açúcar e a maioria tem aditivos, corantes. Deixe o suco natural para tomar em casa. Não pode faltar fonte saudável, porque a única maneira de educar a criança é mostrar que comida é comida e besteira é besteira. Cada um tem a sua hora. Merenda não é lugar de besteira, merenda é hábito alimentar. Se você colocar biscoito na lancheira, ela vai entender aquilo como hábito e pedir sempre o biscoito de lanche.

Você permite que a Flor dê umas escapulidas do cardápio saudável?
Não por mim. Jamais vou oferecer um brigadeiro para ela. Mas em festas de aniversário de amigos, por exemplo, faz questão de comer bolo e brigadeiro e eu deixo. Mas não pega cachorro-quente, nunca tomou refrigerante. Não acho legal tratar a alimentação como uma ferramenta de punição ou de benefício. Não se trata de uma moeda de troca. Não quero traumatizá-la e acho que essa é a maneira mais certa. Fora de casa, ela é exposta a certos alimentos que não compramos. Ela tem curiosidade, experimenta e muitas vezes gosta. Mas em casa não terá.

Os amigos de Flor estranham o cardápio?
Muitas vezes, eles gostam e pedem. Quando mando beiju de tapioca, tenho de fazer vários porque todo mundo quer. Mas outro dia enviei um pão alemão com geleia e tahine. Ela e a professora comeram, porque as crianças ficaram zombando da cara dela: “Eca, você vai comer isso?!”. Então, há os dois lados: elas querem, muitas vezes, experimentar e em outras ficam com preconceito. E ela entende, sabe que come um pouco diferente das outras crianças... É engraçado ver a contrapartida, porque, se alguém que não a conhece oferecer refrigerante, vai ouvir o mesmo “eca” dela (risos). Explico que não precisa falar assim, é só não aceitar.

É possível, de verdade, cozinhar coisas saudáveis e funcionais de maneira gostosa?
Meu programa é uma prova disso. Muitas pessoas me abordam dizendo que não chegavam nem perto da cozinha e que agora estão adorando cozinhar. Outras contam que eram muito preconceituosas com esse tipo de alimentação e hoje gostam. Não é todo mundo que segue meu tipo de alimentação. Mas tenho amigos que experimentaram e adoraram, a ponto de dizer que, se tivessem esse tipo de comida, não comeriam outra.

Existe algo que você não goste?
Tem, sim. Não gosto de leite de vaca.

Os pratos que você prepara, em geral, acabam levando um certo tempo. Qual sua dica para cozinhar no dia a dia corrido?
Depende. Uma salada você faz em dez minutos. A quinua fica pronta em 20 minutos. Acho que o mais importante para quem quer comer bem, é dedicação. Dedicar-se no sentido de planejar. Tem de se planejar para encaixar na rotina.

Você tem dois projetos envolvendo crianças. Conte um pouco sobre eles.
O Bela Infância é um programa na Rádio Globo contra a obesidade infantil. No quadro, dou dicas, receitas e ensinamentos para as crianças se exercitarem e comerem melhor. Nesse projeto, também vou a escolas dar aulas de educação alimentar. Por enquanto, são oito escolas (quatro públicas e quatro particulares) programadas no Rio de Janeiro e São Paulo. O segundo é um pouco maior e está em fase embrionária. A ideia é levar educação alimentar às escolas como disciplina, inseri-la no currículo.

E a coluna “Dia de Feira”, na Casa e Comida?
Todos os meses vou escolher uma receita e falar sobre ela. A primeira foi uma pasta de grão-de-bico com coentro. Aproveitei para falar do coentro e sua história.

Fonte: revista Crescer

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