segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

As crianças são naturalmente altruístas?

Pesquisa norte-americana mostra que o altruísmo não é uma capacidade inata: precisa ser aprendido e desenvolvido. A boa notícia é: você pode ajudar seu filho!

Foi um filósofo francês, Augusto Comte, o primeiro a elaborar o conceito de altruísmo, em 1831. Ele definiu o termo como o conjunto de disposições individuais e coletivas que fazem com que os seres humanos se dediquem uns aos outros. Filosoficamente, o altruísmo costuma ser tratado como uma disposição natural, que nasce com o ser humano. A ciência, porém, diz que esta não é uma característica intrínseca ao Homo Sapiens: ela precisa ser adquirida. Foi o que constatou um novo estudo da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, realizado com 34 bebês entre 1 e 2 anos de idade. Na verdade, os pesquisadores refizeram um experimento produzido em 2006, cujo resultado foi descreditado pelos especialistas. O objetivo principal era verificar se o altruísmo é uma capacidade inata do ser humano, que se manifestaria, então, nas crianças ainda muito pequenas.

Primeiro, os participantes foram divididos em dois grupos. Em um deles, o pesquisador se sentava no chão com a criança e rolava uma bola para ela, para frente e para trás, enquanto também interagia através de conversa. No outro grupo, havia duas bolas: uma para a criança, outra para o interlocutor. Eles, então, brincavam separadamente, em paralelo - embora houvesse o mesmo esforço para estabelecer um diálogo. O adulto deixava sua bola escapar “sem querer” e, nessa hora, os pesquisadores avaliavam se a reação da criança era ajudá-lo ou não, o que demonstraria seu altruísmo.

O primeiro estudo, feito com a participação de bebês de 18 meses em 2006 apontou que as crianças eram, sim, altruístas por natureza. No entanto, na ocasião, os pesquisadores interagiram com os pequenos durante alguns minutos antes do início do experimento, para tentar deixá-los mais à vontade. Para os responsáveis pela segunda versão da experiência, essa interação prévia influenciou os resultados. De acordo com a psicóloga Rita Calegari, a contestação faz sentido: “se eu tiver empatia com o outro, é mais fácil de eu gostar dele, respeitá-lo, amá-lo e me comportar de forma altruísta em relação a ele”, explica.

A versão mais recente da experiência apresentou outro resultado.  As crianças do primeiro grupo, que brincaram junto com os adultos, apresentaram uma probabilidade três vezes maior de pegar a bola do que as crianças que se divertiam sozinhas, o que sugere que o altruísmo pode ser mais influenciado pelo relacionamento, do que por um instinto, ou seja, as manifestações altruístas dependem de como se estabelece a relação com o outro. “É preciso adquirir habilidades como a empatia para que essa capacidade (de ser altruísta) possa se desenvolver”, pontua Rita.

Uma questão de alteridade

Biologicamente, faz todo o sentido que o ser humano seja altruísta por natureza, já que a sobrevivência da espécie foi garantida pela vida em sociedade. “Um bebê só resiste graças à mãe, ao contrário do que acontece com muitos animais, que parecem já nascer prontos”, diz a psicóloga Patrícia Bader, do Hospital e Maternidade São Luiz (SP). É nesse cuidado que recebemos dos nossos pais ainda bebês que nos espelhamos para começar a aprender a importância da dedicação ao outro, que é o princípio do altruísmo. Afirmar que já chegamos ao mundo com esse sentimento é algo complexo. “A criança é capaz de bons gestos e tem atos amorosos, mas dizer que ela é altruísta, que é o estado de efetivamente amar e respeitar o próximo, é exagero”, explica Rita. Para chegar lá, é necessário desenvolver uma série de mecanismos e capacidades por meio de um longo processo. “Nascemos com todas as qualidades em potência, mas dependemos da relação com o outro para desenvolvê-las”, complementa a psicóloga Angela Bley, Coordenadora do Departamento de Psicologia do Hospital Pequeno Príncipe (PR).

Altruísmo em três passos

O desenvolvimento do altruísmo pode ser dividido em três etapas básicas. A primeira delas é reconhecer-se como indivíduo, um processo fundamental para diversas outras capacidades humanas. Os pais são grandes colaboradores nesse processo. “Quando o pai e a mãe reconhecem que o bebê tem preferências e intenções próprias,  estão tratando-o como um sujeito, o que ajuda o próprio bebê a se reconhecer como tal”, explica Patrícia. Isso implica em aceitar e respeitar os gostos alimentares do bebê, saber de que tipo de carinho ele mais gosta, em que posição prefere dormir, o que o assusta...

A segunda fase acontece por volta dos 4 anos, quando a criança já tem uma organização psíquica maior, com uma noção mais clara do “eu” e do “outro”. Graças a isso, ela tende a ter atitudes de reciprocidade, comportando-se de maneira mais reativa: colabora, quando alguém se mostra disposto a colaborar com ela.  A escolarização é importante nesse ponto. “A partir da ampliação da rede social da criança, ela começa a perceber que o outro tem suas próprias vontades e necessidades.”, esclarece Ângela. Assim, o altruísmo está ligado à empatia.

É apenas por volta dos 10 anos que a criança adquire maturidade e experiência  para praticar atitudes altruístas de forma mais  consciente e voluntária. Nessa idade, ela já entende que, ao doar roupas e livros, por exemplo, está ajudando crianças que ela nem conhece. Ajudar, mesmo sem ter nenhum tipo de relação com outras pessoas, simplesmente por saber que é uma boa atitude a se tomar, passa a ser uma escolha própria.

Faça o que eu faço

A melhor maneira de incentivar seu filho a sentir amor pelo próximo, ser colaborativo, gentil e disposto a ajudar é o exemplo. “O altruísmo se aplica no dia a dia da criança, quando os pais se mostram carinhosos e cooperativos entre si e com ela, quando valorizam atitudes como emprestar brinquedos para outras crianças e respeitar o próximo”, comenta a psicóloga Carmen Alcântara. “Ações como compartilhar o lanche, ajudar no cotidiano da casa e doar roupas e brinquedos que não são mais usados são formas de estimular o altruísmo”, completa a psicóloga Isabel Abreu, do colégio Mopi (RJ).

No entanto, é importante que os pais também deixem a criança ciente de que ela não precisa ser altruísta todo o tempo - porque ninguém consegue, salvo raras exceções com Gandhi e Madre Teresa de Calcutá. A criança pode escolher se quer emprestar um brinquedo ou não, mas precisa saber que toda a ação tem uma reação. Nessa situação do brinquedo, por exemplo, você pode explicar que seu filho tem o direito de não querer emprestar nada ao amigo, mas perguntar como ele se sentiria caso na posição contrária. “É importante que a criança sinta as consequências de seu comportamento, colocando-se no lugar do outro”, explica Rita Calegari. A chave para o altruísmo está justamente aí, em ajudar seu filho a fazer permanentemente esse exercício de se colocar no lugar do outro. E acredite: não é tão fácil quanto parece...


Fonte: revista Crescer

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