sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Tratamento inovador com sal alivia problemas respiratórios

Essa terapia alternativa com a inalação do ar salgado, apesar de pouco conhecida no Brasil, é antiga na Europa


Para uns, ele é perigoso, por elevar a pressão arterial. Para outros, é tempero indispensável. O sal, que já foi até moeda de troca de antigas civilizações, atualmente está se popularizando como terapia alternativa contra gripe, resfriado, rinite, sinusite, asma, tosse, bronquite crônica e outras doenças respiratórias. O tratamento, chamado de haloterapia (halo, em grego, é sal), acontece em salas especialmente preparadas, com temperatura e umidade controladas, inclusive para crianças.

Cerca de quatro toneladas de sal revestem as paredes, o teto e o chão de cada ambiente, que não tem janelas. De longe, parece neve. Mas basta tocar as laterais não uniformes da sala para perceber que são duras e pisar no solo para ver que ele é composto de pedrinhas soltas. Os frequentadores adultos se acomodam nas cadeiras e relaxam por 45 minutos, ao som de música ambiente, sob luzes coloridas de cromoterapia. As crianças gostam mesmo é de brincar com baldinhos e pás, como se o sal do chão fosse areia. Também há opção de levar filmes e desenhos em DVD, para assistir na televisão. As salas geralmente não são separadas para adultos e crianças, mas algumas clínicas deixam brinquedos em uma delas – e os pais ou responsáveis precisam acompanhar os filhos de até 12 anos. Durante toda a sessão, micropartículas de sal são lançadas de um pequeno orifício na parede, formando uma névoa branca muito fina.

“Comecei a haloterapia em 2011, quando estava grávida. Sempre tive rinite, mas não queria usar muitos medicamentos durante a gestação. As sessões me aliviavam e comecei a respirar melhor”, conta a servidora pública Adriana Scolari, de Porto Alegre (RS). Seu filho Diego, hoje com 2 anos e meio, frequenta a terapia desde bebê – a mãe o amamentava normalmente no peito dentro da sal. “Costumamos fazer sessões preventivas no início do inverno e dificilmente o Diego fica resfriado ou gripado. Sei que muitos médicos têm resistência ao tratamento, mas foi minha médica homeopata quem me recomendou”, diz.

O uso do sal como terapia existe há muito tempo, como a lavagem nasal com solução de cloreto de sódio 0,9%. “Mas não há comprovação sobre a eficácia das câmaras de sal para rinite, sinusite e outras doenças de vias superiores”, opina Renata Di Francesco, presidente da Academia Brasileira de Otorrinolaringologia Pediátrica.

“O sal provoca um aumento do batimento ciliar do sistema respiratório, o que realmente melhora a secreção do muco. É esse o princípio da inalação feita com soro fisiológico, um procedimento simples, caseiro e barato”, defende o otorrinolaringologista pediatra Fabrizio Ricci Romano, do Hospital Infantil Sabará (SP). Para ele, a questão é se vale a pena pagar pelas sessões nas salas de sal. “É um custo alto Para um benefício que pode ser obtido em casa”, argumenta. Romano explica que, a princípio, não há risco na haloterapia, mas tudo depende da quantidade de sal inalado – se for demais, pode desidratar a mucosa e provocar alguma lesão. Como saber? “Se a pessoa perceber que o ar entra machucando e sente incômodo, é sinal de que há sal demais no ar”, ensina o médico.

Pelo mundo
Enquanto no Brasil ainda paira uma névoa de desconfiança entre os profissionais de saúde, mundo afora a haloterapia é vista com bons olhos: na Europa, é considerada como tratamento médico há quase 200 anos e, nos Estados Unidos, não precisa de nenhum tipo de regulação para ser oferecida, por ser totalmente natural.


Pesquisas internacionais relatam melhoras clínicas nas pessoas que fizeram uso das câmaras de sal. É o caso de um estudo da Universidade de Medicina de São Petersburgo (Rússia), com 124 pacientes que tinham doenças respiratórias. E também de outro levantamento do Hospital Central de South Karelia, na Finlândia, que concluiu que “não se pode excluir a possibilidade de uso de câmaras como terapia complementar à medicação convencional” no tratamento a asmáticos. Já na Polônia, uma pesquisa da Universidade Jagiellonian, com 303 pessoas, relatou que, além dos benefícios respiratórios, o tratamento é útil para relaxamento. Outro estudo da mesma instituição comprovou que, após 24 dias de sessões, sintomas de rinite como nariz escorrendo ou entupido e espirros diminuíram.

Tudo começou com o médico polonês Feliks Boczkowski, em 1839, que percebeu os benefícios da poeira de sal inalada pelos trabalhadores das salinas subterrâneas. Ele observou que esses homens tinham menos problemas respiratórios que o restante da população e, inspirado nisso, fundou uma sociedade anônima para dar início a tratamentos na Mina de Sal de Wieliczka, um resort que existe até hoje em uma parte dos túneis e se tornou um famoso ponto turístico no país.

Atualmente, os estudos sobre a eficácia da haloterapia se concentram na Rússia e na Finlândia, mas os espaços que oferecem o serviço se espalharam por diversos países como Alemanha, Estados Unidos, Turquia, Austrália, Dinamarca, África do Sul, Israel, Reino Unido, Canadá e Suécia.

Na América Latina, a primeira sala de haloterapia foi aberta em 2011, na cidade de Porto Alegre (RS), pelo empresário Charles Finocchiaro, e foi batizada de Spa Natural do sal. Em seguida, a terapia chegou a Campinas (SP), no Spazziom. “As partículas de sal inaladas são carregadas de íons negativos, que trazem bem-estar e relaxamento, além de ajudar na melhora da respiração”, explica Isabel Romanello, sócia do local.

“Meu filho William nasceu prematuro, com 550 gramas, e ficou cinco meses no hospital. Depois da alta, passou a ter crises de asma e chegou a ir para a UTI”, conta a analista tributária Renata de Souza, de Campinas. Buscando alternativas na internet, ela descobriu a haloterapia. “Frequentamos há quatro anos e ele adora. Após cinco sessões, percebi muita diferença: ele passou a dormir bem e respirava melhor. Nunca mais foi internado.”

Atualmente, a haloterapia é oferecida em cinco clínicas ou spas nas cidades de Porto Alegre (RS), São Paulo (SP), Campinas (SP), Brasília (DF) e São Luís (MA). A corretora de imóveis Flávia di Paola, de São Paulo, resolveu tentar a terapia quando sua filha Rafaella, 4 anos, enfrentou uma crise forte de sinusite em março. “Fizemos dez sessões, mas, desde a primeira, notei melhora do sono e da respiração, com alívio da tosse. Desde então, ela não teve mais nada”, diz Flávia. 

Luiz Pregnaca, sócio da VitaSal, em São Paulo, explica que o paciente não deve parar de tomar os medicamentos tradicionais enquanto se trata com a haloterapia. Ele alerta que o procedimento é contraindicado a pessoas com febre, oscilações de pressão e em tratamento contra o câncer. Crianças menores de 6 meses também não devem fazer.

E você pode estar se perguntando se o sal inalado não altera a pressão sanguínea. Pregnaca explica que não: “De acordo com a literatura médica, a quantidade de sal absorvida em uma sessão é de, no máximo, nove miligramas de sal, o que, para comparação, é menos da metade do que se encontra em uma lata de refrigerante light”. Segundo ele, isso é o equivalente a passar três ou quatro dias na praia. para surtir efeito, recomenda-se que sejam feitas dez sessões, sendo pelo menos três em dias seguidos. Não é preciso prescrição médica. Os preços por sessão, no Brasil, variam de R$ 55 a R$ 75.

Depoimento: Maria Clara Vieira

Adeus, “Dariz”

“Eu ainda não tenho filhos, mas imagino bem o que os pais passam quando as crianças têm problemas respiratórios. Dei bastante trabalho para minha mãe, com nariz escorrendo, tosses, espirros, dificuldade para dormir, rinite e sinusite fortes. Testei recentemente a terapia, por apenas um dia, em São Paulo, mas foi o suficiente para notar diferença. Cheguei respirando com dificuldade, com o nariz entupido (o que, infelizmente, é comum para mim). Depois de guardar meus pertences em um armário, tirei os sapatos e calcei um protetor descartável – item obrigatório por questão de higiene. Nos cabelos, uma touca. Então, abre-se a porta: na sala surreal, com luzes de cromoterapia, dá até para dormir na espreguiçadeira, de tão relaxante que é o ambiente. Parecia que nada estava acontecendo – até que, alguns minutos depois, foi possível sentir o sal dentro das minhas narinas e na garganta, mas bem de leve, nada que incomodasse. Comecei a expectorar o muco e o nariz desentupiu. Ao final da sessão, a sensação foi de bem-estar – talvez nem tanto pelo relaxamento, mas, principalmente, por respirar numa boa, um privilégio, no meu caso. Três semanas depois, meu nariz continuava excelente!”


Fonte: revista Crescer

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