No começo de fevereiro, minha filha Laura foi para a escola, poucos dias depois de completar 2 anos. Para mim, foi um dia muito especial, um passo adiante no crescimento dela. Para a mãe, foi como se fosse rasgado seu coração.Como se tirassem o pedacinho que carregou dentro dela por nove meses e, desde então, esteve por perto quase o tempo inteiro. É assim mesmo. Não há como negar que pais e mães têm sentimentos e visões diferentes sobre os filhos. Mas isso nem de longe significa que o papai aqui não tenha experimentado os mais diversos medos e inseguranças sobre a função.
Pensem bem: as mulheres, de uma maneira ou de outra, sentem que nasceram para o papel de mãe. Com os homens é um pouco diferente. Você nunca se considera preparado até que chega a hora do exame positivo no teste de farmácia e confirmado pelo médico.
Lembro-me bem da manhã em que, no metrô, a Priscila, minha mulher e mãe da Laura, delicadamente me avisou que estava “atrasada”. Minha resposta foi imediata: “Deus me livre de você estar grávida”. Não que a gente não quisesse ter filhos. Mas ainda estávamos organizando nossa vida, morávamos com meus sogros, e queríamos planejar com calma. Horas depois, ela aparece de surpresa no meu trabalho. O tonto aqui não desconfiou de nada até que ela começou a chorar. Com a resposta delicada que dei mais cedo, ela estava apavorada com a minha possível reação ao positivo. E eu? Bom, eu só consegui abrir um sorriso do tamanho do mundo.
Até que, de repente, a ficha caiu. Afinal, ser pai não é só esperar nove meses enquanto a barriga dela cresce. Você deixa de ser responsável apenas por si mesmo e tem uma nova vida que vai eternamente para a sua conta. Literalmente para a sua conta. E você se encontra afogado em preocupações e temores.
1) Um bebê e um bolso
Fraldas. Pomadas para assadura. Roupas pro bebê. E para a mãe, que não entra mais nas dela. Mamadeiras. Médicos, maternidade, exames, remédios, vacinas, berço, quarto, reformas... ufa. Já falei fraldas, né? Não adianta se iludir: ter um bebê afeta o bolso. Por mais que você tenha uma vida estável, sempre vai achar que faltará alguma coisa para seu filho. E vai temer que seu dinheiro não seja suficiente.
Se ainda por cima a mulher optar por deixar de lado sua vida profissional por uns tempos, como eu e a Priscila decidimos de comum acordo, está tudo nas costas do homem. E não adianta chorar, porque já vai ter um outro chorando bastante. O que é curioso é que isso é a primeira coisa que passa pela cabeça do homem, mas não da mulher. Segundo o psicanalista Rubens de Aguiar Maciel, que estuda as experiências psíquicas do homem à espera da paternidade, isso tem a ver com a realidade da pessoa no momento, mas também com o papel social masculino. “Existe mesmo essa cobrança de que o pai seja o provedor, mesmo que as responsabilidades dentro de um casal tenham mudado. Ainda faz parte do inconsciente coletivo.”
2) Ele é perfeito, doutor?
É lógico que o amor por um filho é incondicional. Uma doença grave, um problema de saúde físico ou mental não vai afetar os sentimentos por ele. Mas vai fazer com que ele tenha uma vida mais difícil, sofra mais, e isso é a última coisa que um futuro pai deseja ver. Nos exames pré-natais, em todos eles, vale a pena perguntar: os bracinhos estão aí? As mãozinhas? Todos os dedos? E mesmo que tire a dúvida em cada visita, na hora que seu filho nascer você vai repetir a contagem. É quase instintivo.
Eu fui a todas as consultas pré-natais com a minha mulher, queria acompanhar de perto, já que era a barriga dela que crescia e não a minha. Mas a realidade nos consultórios não é bem essa. “Cerca de 30% das mulheres têm a companhia do parceiro em todas as consultas. A maioria, porém, vem só uma vez e depois na hora do parto”, diz Flávio Roberto Tanesi, obstetra do Hospital Santa Catarina (SP) que acompanha gestações há 40 anos. Mesmo os que vão, diz Tanesi, são mais calados. Sempre que perguntam algo, tem a ver com essas questões de formação do bebê, uma abordagem mais prática e menos sensível que a da mãe.
O pediatra Getúlio Morato, dos Hospitais Regionais de Planaltina e Taguatinga, em Brasília, diz que é a mesma coisa depois que o bebê nasce. “Geralmente o pai quer saber sobre desenvolvimento físico da criança, se cresce e ganha peso. Já as mães acabam se preo-cupando mais com o comportamento, o que dar de alimento, como fazê-lo se acalmar, dormir bem.” Por isso, os médicos (e eu) dizem: quando o pai vai nas consultas pré-natais é melhor para a mãe, para o bebê e para ele próprio, que já cria um vínculo com o filho.
3) Nove meses de medo
Agora que o cara se acostumou com a ideia de ser pai, o que menos quer é que algo estrague tudo. Sim, a gente pensa no que pode dar errado durante a gravidez. Seu marido vai querer que você passe os próximos nove meses deitada na cama vendo TV. Tira esse laptop do colo! Pode queimar o pobre do bebê!
E, claro, vocês querem sair e fazer compras para o quarto do bebê. Até o babado do calço do berço. No fundo, a gente só sente medo que algo saia mal para vocês e para os nossos filhos. E temos de manter o autocontrole, alguém tem de ficar calmo nessa história. A mulher mesma já se cobra o suficiente, por ela, pelo pai do bebê e por todo mundo, para ser a mãe perfeita.
A desvantagem dos homens é que, ao contrário das mulheres, a gente não fica conversando um com o outro para saber se o amigo teve a mesma neurose que a gente quando a mulher dele estava grávida. Então é mais difícil saber o que é normal, o que não é, ou mesmo desabafar. Mas somos assim mesmo, paciência.
4) E eu? Sobrevivo?
Quanto tempo ainda tenho de vida? É uma pergunta que eu me fiz quando descobri que seria pai. Você passa a temer que algo lhe aconteça e sua convivência com a cria seja interrompida no melhor da festa.
Começa, então, a corrida aos check-ups. Muitos homens vão querer compensar a negligência com a saúde durante toda uma vida de uma só vez. Vão querer fazer dietas, atividades físicas, justamente quando seu tempo ficará mais escasso. Eu fiz exames de sangue e coração, mas não consegui mudar todos os hábitos como o médico pediu. Ponto para as mulheres, que visitam o ginecologista com mais frequência e mais cedo.
Para Nabil Ghorayeb, cardiologista e chefe do serviço de check-up do Hospital do Coração (SP), os homens precisam de um empurrão a mais para se cuidar. “Eles esperam um evento específico, como o nascimento de um filho, um doente na família, a empresa mandar ou, se praticam esportes, a solicitação de exames para participar de uma prova.” Ele recomenda que os homens façam exames de sangue, meçam sua pressão e façam testes ergométricos a partir dos 30 anos. Outros exames cardiovasculares e para prevenção de câncer de próstata podem ficar para depois dos 40.
5) Na hora H
A não ser que o pai seja da área médica ou fã daqueles programas que mostram cirurgias, a experiência de assistir a um parto não costuma parecer convidativa. Mas quando quem está para nascer ali é um filho, ele provavelmente vai querer estar por perto.
Os cursos de gestantes das maternidades, que preparam, entre outras coisas, para o momento do parto, têm grande adesão dos pais. “Cerca de 98% das mulheres são acompanhadas pelo pai da criança e em torno de 95% deles assistem ao parto”, diz Márcia Regina da Silva, enfermeira responsável pelo curso da unidade Itaim do Hospital São Luiz (SP).
Tanesi, do Hospital Santa Catarina, nota uma diferença nos homens que participam do curso e nos que não participam. Os últimos têm muito mais chances de passar mal e dar um trabalho a mais para a equipe obstétrica. “São poucos os pais que ficam mesmo vendo tudo. A maioria fica ao lado da mulher segurando a mão delas. Na verdade, em alguns casos a gente acha que elas é que seguram a mão deles!”
Não fizemos o curso, mas deu tudo certo e eu não passei mal. A Laura nasceu de cesariana, por recomendação médica (a Priscila já tinha feito uma cirurgia na coluna) e eu confesso que achei tranquilo. Os especialistas com quem conversei me contaram que os homens costumam ficar nervosos por se sentirem impotentes, sem saber se o que está acontecendo está dentro do esperado e sem poder ajudar.
Agora, perdoem o clichê, a sensação de ver o bebê nascendo é indescritível. Mesmo com o pavor e a eternidade dos instantes entre isso e o primeiro choro.
6) Cuidado, frágil!
Um recém-nascido é muito pequeno e frágil. Dava até uma certa raiva ver como a minha mulher e as enfermeiras nasceram para isso! Elas seguram o bebê com uma naturalidade... Na hora de pegar, a gente fica todo desajeitado, ainda mais na primeira vez. É ótimo ter nosso filho no colo, mas quando ele muda de braços e vemos que escapou ileso, é um alívio.
Por isso, a experiência do primeiro banho que o pai dá sozinho é importante, ajuda a dar confiança. A prática é incentivada nas maternidades. “Um dia antes da alta, a gente já fala sobre os cuidados em casa e assim ficam mãe e pai mais tranquilos”, diz Silvia Aline Ferreira Andrade, enfermeira coordenadora da maternidade e do centro obstétrico do Hospital São Luiz (SP).
7) Ele vai gostar de mim?
É óbvio que o filho vai gostar de você, mãe. Ele saiu aí de dentro, oras. Você não precisa fazer nenhum esforço. Mas o pai precisa. É como se a mãe não tivesse trabalho para conquistá-lo, mas o conselho para os papais é que parem de só pensar e se mexam.
E veja só o que ouvi do psicoterapeuta Luiz Cuschnir, do Centro de Estudos da Identidade do homem e da Mulher (Iden): “Às vezes a mãe monopoliza tanto a criança que acaba passando a ideia de que o filho tem de ter medo do pai. A mãe deve estimular o contato entre os dois e aceitar que não sabe mais que ele, mas, sim, que vê a vida de outro jeito”.
Muito reconfortante ouvir isso. Mas fica claro que precisamos fazer benfeita a nossa parte. É aquele esforço a mais para estar por perto o máximo de tempo possível, mesmo que nos primeiros meses o bebê não interaja. À medida que o tempo passa, fica mais fácil e gratificante, posso garantir. Eu e a Priscila nos divertimos a cada instante com a Laura. Hoje ela sabe a bandeira de vários países do mundo por conta das brincadeiras que faço com ela falando dos times de futebol, dos países que disputaram a Copa. Coisa de pai. Eu “não sou a mamãe”, como já dizia o bebê do famoso seriado de dinossauros, mas já vejo minha filha pedindo minha presença.
Leonardo Bertozzi, pai de Laura, 2 anos, é jornalista esportivo, comentarista de futebo
l dos canais ESPN e da Rádio Estadão/ESPN e editor do site Trivela.com, especializado em futebol internacional
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