segunda-feira

Você não é perfeita

Ter um parto natural, usar só fraldas de pano no bebê, dar de mamar pelos dois anos indicados pela OMS e não se dedicar à carreira que tinha antes de engravidar. Em seu mais novo livro, a filósofa francesa Elisabeth Badinter discute por quais motivos as mães de hoje buscam tanto a perfeição
”Em vez de pedir às mulheres que lavem as fraldas sujas dos bebês ou seus tampões higiênicos, como faziam nossas avós, seria melhor pedir à indústria que fabrique fraldas biodegradáveis. O cuidado com o planeta não deve se transformar em uma nova religião em que as mulheres sejam escravas.” É assim, sem rodeios, que a filósofa francesa Elisabeth Badinter – referência em discussões sobre maternidade – pretende dar um alento às mães contemporâneas com o seu mais recente livro, O Conflito – A Mulher e a Mãe (Ed. Record, R$ 39,90), que está previsto para chegar ao Brasil no mês que vem. A obra foi lançada na França no ano passado e entrou para a lista de best-sellers do país. Como já é usual em seu discurso, Elisabeth é dura nas palavras, e no alvo principal está o dilema naturalista (ou obsessão, conforme sua visão). Afinal, esse é apenas um dos tantos desafios para as mães de hoje que, segundo ela, buscam uma perfeição sem sentido.

Depois de revolucionar as discussões sobre maternidade com o livro Um Amor Conquistado – O Mito do Amor Materno (Ed. Nova Fronteira), lançado na década de 90 para defender que o amor da mãe pelo filho se constrói no dia a dia, e que o instinto materno não é inerente a qualquer mulher, Elisabeth volta a polemizar. A nova obra ganhou adeptos, mas também muitas críticas na Europa e nos Estados Unidos. Principalmente pelos defensores mais radicais da amamentação, tema que ela trata com bastante ironia. Seu foco, no entanto, é um velho conhecido: a tradicional culpa materna, tema de diversos textos e pauta de conversa da maioria das mães. Só que aqui ela discute o porquê de isso acontecer, analisando o aumento das exigências para conseguir o título de “boa mãe”. Mãe de três filhos e avó de três netos, nesta entrevista exclusiva à CRESCER ela não vai dar soluções, mas chamar a atenção para algo bem, bem importante: a mulher precisa voltar a confiar nela mesma.

CRESCER: A senhora escreveu que “durante os anos 1980-2010, uma revolução aconteceu em nossa concepção de maternidade”. Por que esse período?
ELISABETH BADINTER: Porque a contracepção, que se impôs em todo o mundo industrializado durante os anos 1970-1980, muda radicalmente nossa concepção de maternidade. A partir do momento em que escolhemos ter um filho, e não mais aceitamos que ele “nos cai do céu”, nossa responsabilidade se torna imensa. Como ouvimos hoje em dia, “ele não pediu para nascer”. Se nós o colocamos no mundo, é para que ele seja o mais feliz possível, e que tenha os meios necessários para enfrentar as dificuldades da vida. Juntamente a essa nova responsabilidade, nós presenciamos um aumento dos deveres maternos. Os psicólogos e outros especialistas em infância nos pedem que tratemos as crianças como uma pessoa, nos dizem para observar seu desenvolvimento físico, psicológico, intelectual e artístico, que os amamente exclusivamente por seis meses etc. Para ser uma boa mãe, é obrigatório se consagrar ao seu filho 24 horas por dia. Caso contrário, nos sentiremos culpadas à menor falha ou problema. Mas, na verdade, não há educação sem falhas; valeria mais dizer isso às mulheres.

C.: Essa busca pela perfeição começa já mesmo na gravidez, não?
E.B.: Sim, no instante em que nos descobrimos grávidas. Nada de álcool, nada de cigarros e um regime alimentar restrito, sob a pena de ser designada como a culpada pelo menor problema da criança. Os médicos ordenam que você deve aplicar o princípio da precaução máxima.

C.: Um dos temas abordados é a volta a um meio de vida mais “natural”, como no caso das mães que optam por um parto em casa ou fraldas de pano. Como buscar o equilíbrio entre cuidar do planeta, mas sem recusar a modernidade?
E.B.: Como encontrar o equilíbrio... Um pouco de bom senso é suficiente. Em vez de pedir às mulheres que lavem as fraldas sujas de seus bebês ou seus tampões higiênicos, como faziam nossas avós, seria melhor pedir à ciência e às indústrias para inventar fraldas descartáveis biodegradáveis. Isso não estaria acima de suas forças! O cuidado com o planeta não deve se transformar em uma nova religião em que as mulheres sejam escravas.


C.: A senhora afirma que a amamentação é a chave da transformação materna. O que muda na vida da mãe?
E.B.: Se nos conformamos com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), as mães do mundo inteiro devem imperativamente dar de mamar ao seu bebê durante seis meses, e de acordo com a necessidade dele, o que significa dia e noite. Em seguida, elas devem continuar dando de mamar por mais um ano e meio, mas com uma alimentação mista. As associações pró-amamentação, então, desaconselham absolutamente retomar o trabalho antes de um ano. Esse “decreto” muda radicalmente a vida da mulher, principalmente se ela trabalha. Dar de mamar noite e dia significa, por maior comodidade, colocar o bebê na cama entre o pai e a mãe. A vida do casal pode ser seriamente perturbada. Essa questão “bebê em primeiro plano” ameaça o acordo do casal e a independência financeira da mulher. Quanto àquelas que não podem dar de mamar, repetimos que estão de má vontade. E as que dizem claramente que não querem são vistas como egoístas e irresponsáveis.

C.: Nesse contexto da busca pela perfeição, como a senhora acredita que as mulheres vão criar suas filhas?
E.B.: Acredito que essas novas mães que sonham em ser perfeitas vão criar suas filhas como um duplo delas mesmas e, como sempre, as meninas vão se revoltar contra esse modelo maternal e farão o contrário. Assim como as jovens mães atuais não querem se parecer com suas mães feministas, suas filhas não sonharão com nada a não ser independência e liberdade.

C.: Como aprendeu a ser mãe e o que a surpreendeu?
E.B.: Aprendi a ser mãe no dia a dia e, como todas as mães, fiz uma boa quantidade de besteiras ao escutar os especialistas em infância que mudam de opinião a cada 20 anos. O que me surpreendeu foi perceber que as mães são também seres humanos imperfeitos e limitados. Desejamos todo o melhor aos nossos filhos e, sem querer, às vezes nós fazemos o pior!

C.: Hoje em dia, as mães se questionam mais do que antigamente. A senhora acredita que essa reflexão é o que provoca as frustrações?
E.B.: Sim, essa é a chave do conflito. As mães são cada vez mais alertadas sobre as novas teorias e confiam cada vez menos em seu bom senso.

C.: E por que essa busca incessante por informação não seria a garantia para criar filhos mais felizes?
E.B.: Porque não há fórmula mágica. Depende da história de cada pai e mãe. Nós, pais e adultos, somos determinados por nosso inconsciente e, por consequência, somos limitados e neuróticos. Essa é a condição humana: imperfeita.

Essa é a versão francesa do livro de Elisabeth Badinter, Le Conflit – Le Femme et la Mère. Até o fechamento desta edição, a capa para o Brasil ainda não estava finalizada

Fonte: Revista Crescer

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