terça-feira

Instinto materno?


Se, por um lado, saber que seu cérebro muda concretamente é curioso e fascinante, claro que não é só de mais sinapses (a comunicação entre os neurônios) que se faz uma mãe. O lado psicológico também se modifica bastante durante a gravidez e os primeiros meses após o parto em prol da maternidade. “A mulher tem uma regressão psicológica para se sentir novamente um pouco bebê, lembrar de experiências, identificar-se com o novo ser. Por isso ela fica mais carente, sensível e insegura”, explica a psicóloga Carmen de Alcântara Oliveira.

A sociedade e a cultura encarregam-se de sua parte: a menina aprende desde cedo a cuidar do outro. Brincar de casinha, como explica a psicanalista infantil Anne Lise Scappaticci (SP), é um exercício imaginativo da criança, um “treino” para o futuro. “Ela repete com a boneca os exemplos que vê em casa. Durante a brincadeira, reverte a perspectiva, ou seja, não é a filha que tem que obedecer, mas quem dá as regras”, diz. Sem perceber, a menina já adquiriu parte do conhecimento da maternidade. A essa altura você já deve estar se perguntando sobre onde entra, então, o instinto materno.

Bem, essa coisa de instinto é polêmica. Mesmo aparecendo no discurso de dez entre dez mães, esse “sentimento” já mobilizou a dedicação de diferentes especialistas, de antropólogos a filósofos, como a francesa Simone de Beauvoir, que há mais de 30 anos questionou o instinto materno. Seguidora de suas ideias, a socióloga francesa Elisabeth Badinter procurou respostas sobre o tema ao escrever Um Amor Conquistado – O Mito do Amor Materno (Ed. Nova Fronteira). Para ela, a figura da mãe é construída na convivência com o bebê. Para outros especialistas, como a antropóloga Mirian Goldenberg (RJ), não é que ele inexista: “Ocorre que questões culturais costumam ser mais determinantes e podem, por vezes, anular o que seria instintivo. Na China, por exemplo, algumas mães cuidam melhor dos filhos homens porque eles são mais importantes para o sustento da família”.

Isso não quer dizer que você tenha só que seguir a razão, o senso comum ou mesmo as estatísticas, e ignorar o que sente. Rosimeire Rossi, 46 anos, mãe de Maria Fernanda, 21, percebeu um carocinho na cabeça da filha quando a menina tinha 8 anos. Achou que algo estava errado, mas não era o que os médicos diziam. Só depois do oitavo especialista conseguiu com que o caroço fosse retirado e analisado. “Minha família achava que eu estava neurótica, ou que não tinha o que fazer por ficar procurando alguma coisa.” Dez dias após a cirurgia, ela levou a filha para tirar os pontos e descobriu que o tal carocinho era um tumor maligno, um tipo de câncer raro e muito agressivo. Hoje, Maria Fernanda está curada.

Mas será que isso tem mesmo a ver com o instinto ou essa ligação toda de Rosimeire com a filha teria sido construída ao longo de todo o tempo – oito anos mais nove meses na barriga – que já haviam passado juntas? E que isso poderia ocorrer também com uma mãe adotiva, um pai, duas amigas muito ligadas ou pessoas que se amam e se conhecem há muito tempo? Para muitos especialistas, o nome desse sentimento, que não é exclusivo entre mãe e filho, é intuição. “É um tipo de conhecimento como qualquer outro. Ele tem fundo afetivo, vem em decorrência do instinto, do inconsciente e não tem nada de sobrenatural”, afirma a psicóloga Virgínia Marchini (SP), especialista no tema que ministra cursos e palestras para que até empresas saibam usar a intuição no ambiente de trabalho. Esse conhecimento, sabemos, a mãe adquire com a convivência, criando vínculos, participando da vida do filho, prestando atenção em como ele é.

Independentemente do nome que se dê para esse sentimento, as mães têm liberdade absoluta para o usarem com seus filhos. Para isso, de acordo com Virgínia, é preciso que a mulher conheça a si mesma, aprenda a se ouvir. Assim, ela vai saber discernir o que é intuição do que é medo e do que é desejo.

SEU CÉREBRO EM TRANSFORMAÇÃO

Quando o bebê nasce, a cabeça da mulher também muda. O cérebro passa por transformações iniciadas pelas liberações de hormônios no parto e na amamentação. As áreas ligadas à motivação, aos estímulos sensoriais e ao raciocínio ficam mais ativas, ajudando nas tarefas do dia a dia.

Fonte: Revista Crescer

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